GIN TÔNICA

Ela tem, invariavelmente, um leve hálito de Gin. Isso não surpreende Lenim  que a  conheceu num agradável piquenique, num final de tarde a espera do por do sol, em meio às árvores do Parque Marinha. O piquenique organizado por amigos em comum , e é bom que se diga, amigos casamenteiros. Naquele dia era compreensível o hálito adocicado deste destilado à base de cereais, pois era servido em honestas xícaras de chá, de várias garrafas térmicas, uma preparação em equilíbrio perfeito de Gin  e tônica. Quem passava pelo divertido grupo pensava que se deliciavam com um saboroso chá. Lenim achou exótico mas como já tinha sido servido com uma harmonizada mistura de Rum e  café, num evento semelhante num frio de 6 graus ao relento, não se escandalizou. Ele viúvo e sem filhos, já passado dos 40 anos,  era alvo dos amigos todos emparceirados, e adeptos de que ninguém deve viver só, que buscavam achar um companheiro(a) para ele e Tianna,  e  neste dia fazer deles um par.  Buscavam “juntar” os dois. Tianna separada, dolorosamente por ter  sido traída, mas entendendo que nem todos os homens são iguais. Mulher inteligente. Ficou receptiva ao convite do encontro às cegas a partir da descrição, altamente qualificada e detalhada, da sua melhor amiga Giovanna. Gostou do Lenim. Levemente grisalho, caseiro e ávido leitor. Segundo Giovanna, alto suficiente para o metro e setenta de Tianna (que ainda gostava de sapatos salto 6, no mínimo)  nem gordo nem magro e nada pavão, ou seja, vamos no vulgar, não se”achava”. Em suma, um homem interessante que estava sozinho por opção, não que faltassem interessadas. Como diz uma música da Marisa Monte,  AINDA BEM, “…porque ninguém dava nada por mim, quem dava eu não estava a fim.. “. Tianna, uma bela e meiga criatura, merecia momentos  felizes, imprimir melhores lembranças. Deu certo. Vivem juntos há três anos. Ele sabe que o beijo dela terá , quase sempre,  um gostinho de Gim. Não, não é alcoolista, apenas aprecia a bebida. Não tem hora, não tem dia. Não precisa ser sexta-feira, nem dia de festa. Permite-se o deleite quando bem entende. Ele adora o gosto discreto e receptivo. Ele aprendeu a beber de uma garrafa térmica um drinque, originalmente servido em copo adequado (que ele sempre considerou altamente importante, adequar o tipo de bebida ao seu devido copo), em singelas xícaras de chá. Ficou determinado que assim seria. Novatos no grupo não entendem, quando recepcionados na casa de Tianna e Lenim, porque o famoso drinque é servido desta inusitada forma.

 

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DE VIRADA

O pior momento foi quando descobriu que ela tinha contratado todo o aparato  para o funeral. Não o surpreendeu mas foi a  gota d’água. Playlist a seu gosto, cerimonial, flores, e até mesmo quem iria fazer o discurso de despedida. Só não teve a audácia de escrevê-lo. Seria cremado, claro. Há muito Júlio notou a indiferença dela ao seu sofrimento. Dores por todo o corpo, dificuldades e limitações se avolumando. Na última consulta, em que ela não o acompanhou, o médico deu o tempo fatal. Dois meses, quando muito. Ele estava mais magro mas no mais ninguém notava seu estado de fragilidade. Casados, sem filhos, num relacionamento normal. Dias bons, muitos sem nada, e a maioria de reclamações de toda ordem, da parte dela. Belíssima, ele sempre apaixonado. Quando Júlio descobriu a doença imaginou que teria alguma solidariedade. Mas não. Não o ajudou em nada. Já aposentados viajavam com frequência. Agora na impossibilidade dele  nada mudou para ela. Continuava com o planejado mudando apenas a parceria. Chamava uma amiga ou outra. Tinha sido um casamento de conveniência para ela, mas Júlio tinha se apaixonado no primeiro olhar. Ela percebeu o encantamento dele e planejou o enlace. Vinte e cinco anos juntos. Então! Ao receber o telefonema, na linha do número fixo da casa, soube dos detalhes da contratação da cerimônia do funeral. Seu funeral. Pobre menina que lhe passou tudo com minúcias não desconfiando que falava com o provável defunto. A ligação era para confirmar alguns detalhes. Assim ela descreveu como seria sua despedida. Júlio ouviu tudo e finalizou a conversa pedindo que nada fosse comentado com Dona Sara, a contratante, pois ela, a atendente, teria sérios problemas se o fizesse. Ele foi bem convincente como brilhante advogado que sempre foi. Recostou-se na cadeira de couro do escritório/biblioteca e visitou mentalmente os anos passados com Sara. Percebeu o bobo que sempre fora. Sorriu e pensou na conhecida frase: Deus não joga mas fiscaliza. Respirou fundo e ligou para seu médico. Iria submeter-se ao medicamento experimental sugerido na última consulta. Enfim, tranquilo e otimista, subiu e foi tomar seu banho. Duas horas depois estava defronte a mesma mocinha com quem falara à tarde. Queria confirmar o serviço contratado, que descobriu estar totalmente pago por Sara. Não queria nenhuma mudança. Apenas o defunto seria outro. Sara teve um infarto fulminante e teria tudo do melhor na sua despedida. Que ironia, tudo escolhido pela própria. Júlio a achou, ainda, bem bonita em seu belíssimo caixão. Hoje vive com Célia, viajando para os lugares também organizados por Sara. Tudo muito bem organizado. Tudo de muito bom gosto. E Célia? O amava.  

VOANDO POR AÍ

Laura, 45 anos, diretora de uma grande Empresa, voa com frequência em função da exigência da profissão. E nunca gostou de conversas bobas tipo como seria o voo, sobre o tempo, sobre quão chatas eram as esperas. Enfim… Conversas ocas. Então desenvolveu uma metodologia de espera para não ser incomodada. Fazia para se distrair, não tinha outras intenções. Sempre de olhos baixos lendo alguma coisa no seu iPad. Às vezes, poucas vezes,  apenas fingia ler. Pois bem, graças a este costume começava a conhecer as pessoas pelos sapatos, quando ficava entediada de olhar para a tela onde lia ou fingia ler. É, pelo sapatos. Ia levantando os olhos a partir dos pés das pessoas. Desenvolveu esta arte (Bem difícil.  Experimente!) de ir tipo escaneando, lentamente, sem saltar as partes ou ir de supetão dando de cara com a pessoa. E gostava de fazer elucubrações, a partir deste ponto de vista, (dos pés) e tirando conclusões ao percorrer cada pedaço (da pessoa).  Ria sozinha das suas conclusões. E foi sem poder conter o riso que conheceu Tiron.  Sapa tênis, tamanho 42/44, homem alto, concluiu. Limpos. Caprichoso. Calça jeans quase padrão, logo não era um jovem. Garoto. Guri. Fedelho. Classificava assim todos com menos 40 anos. Coxas firmes. Uia… Óóóóó´, lamentou. Estava com uma revista no colo! Camiseta polo de cor única. Ela odiava as com listras. Mangas longas, que pena… não poderia apreciar os pelos dos braços. Mãos grandes, uma sobre a revista, outra segurando uma pequena valise de mão que estava apoiada na cadeira ao lado. Valise de couro marrom. Usada. Não velha. Voltando para as mãos. Nada de anel ou aliança. Homens usando anéis lhe causava asco. Aliança indicava “fique longe”, se bem que os “com” eram tão ou mais disponível, não que ela buscasse qualquer deles. Laura já tinha tido vários relacionamentos. Tipo rápido, médio  e 6 anos, que foi seu mais longo. Todos com términos  bem definidos. Com choro, sem choro, com raiva, decepção, enfim… Sofrência atual? Zerada. Mas vamos a descoberta de Tiron. Onde estava? Nas coxas…não.! Já passei das coxas. Mas estava nas mãos que dizem muito de um homem. Podia vê-las bem uma vez que os assentos da sala de embarque, daquele aeroporto, eram bem próximas.  Metro e meio de distância entre o frente a frente dos sentados. Unhas limpas e bem cortadas. A  avaliação ia tornando o homem do tipo de bom padrão para Laura. Ombros largos. Já havia passado pelo abdômen e gostado. Tinha uma protuberância que considerava  razoável. Homem muito sarado nessa idade lhe parecia um bobão querendo ter 18 anos. Bem, isso é coisa de cabeça de Laura. Chegou ao colarinho que tinha os dois botões abertos mostrando um pescoço sensual, sem correntinhas, o que lhe deu grande alívio. Homens de correntinha lhe pareciam afeminados, com cordões de grossos elos lhe causavam uma imediata paralisação no escaneamento e procurava outros pés.  Não era o caso. Uns pelos discretos se mostravam tímidos no pouco que via do peito.  Chegou na linha da boca e encontrou duas carreiras de lindos dentes. Sorriu para aquela boca, passou pelo nariz rapidamente e encontrou os olhos que sorriam junto com a boca e faziam ruguinhas, nos cantos, de enlouquecer qualquer uma. Os olhos dele se estreitaram e fizeram aquela expressão de quem estava sabendo o que Laura esteve fazendo, e provavelmente pensando, ao percorrer sua pessoa naqueles minutos. Ele havia acompanhado cada expressão dela e fez enorme esforço para não mover um músculo, com receio de espantá-la, ao longo do que ele também associou a um escaneamento. Mesmo quando ela chegou na altura da revista e fez um muxoxo, claramente decepcionada. Ali foi um grande teste pois pensou em pegar a revista rapidamente. Mas venceu o desafio. Passado este momento ele notou que ela começava a esboçar um sorriso que ele achou lindo, doce e sedutor. Aliás ele estava se sentindo como se ela o despisse, durante o percurso do olhar  aí a razão, o anseio, de pegar a revista pois pensou que ela poderia ficar instável. A revista.  Agradeceu a firmeza do jeans. Percebeu que ela o  avaliava sem um interesse em particular, pareceu-lhe mesmo um hobby, peculiar, mas um hobby. Só que quando seus olhos se encontraram estavam ambos sorrindo. Voaram  juntos lado a lado graças a um pequeno troca troca de poltronas que ele gentilmente argumentava como ser necessário para viajar junto à esposa, o que causava um leve estranhamento, provocador de batimentos cardíacos descompensados, em Laura. Depois dessa fizeram muitas viagens juntos e ela ensinou o jogo a Tiron e começaram a apostar quem conseguia fazer a melhor avaliação. As conclusões eram discutidas e as que podiam ser corroboradas eram contabilizadas como pontos. Quem perdia ficava à mercê do que o outro lhe impingiria, à título de castigo. A falta de habilidade ou ansiedade de ir dos pés aos peitos de alguma mulher, ou se deter por tempo considerado inadequado, por Laura, nas coxas da dita cuja desencadeava uma pena pesada. Tiron também considerava falta grave quando Laura se encantava com aquele espaço entre as coxas e o abdômen, sem revistas que o preservasse.  E quem perdia tinha que pagar a “prenda”,  às vezes durante o voo… Uia!!!!

TOMADA DE DECISÃO

À mercê das tantas implicações do momento em que vivia, Adolpho não conseguia manter uma coerência no encadeamento das ideias. Ora achava que estava certo, ora pensava ser um tolo.  Não era alto nem baixo, nem musculoso nem raquítico, nem gordo nem magro, nem feio nem bonito.  Se o chamassem de feio não concordaria mas se dissessem que era bonito não acreditaria, até porque nunca tinha sido assediado como julgava serem os que são bonitos. Mas seus problemas não giravam em torno da sua aparência que não era ruim avaliando-o como um todo. Mas era inteligente, por isso a ideia de ser um tolo pouco fixava no seu pensamento. O que mais incomodava era a incerteza do que seria a melhor escolha. E se a decisão, que precisava ser tomada na manhã seguinte, o certificasse como um tolo?! E precisava ser na manhã seguinte?  Sim, pensou. Era o prazo fatal. Olhou para a mochila, jogada na poltrona do confortável quarto do hotel, aberta e com algumas poucas peças de roupas espalhadas, dobradas, usadas, amassadas que vinham sendo arremessadas ali fazia exatos seis dias. O sexto dia de tormento, de pensamentos desalinhados com seu modo de ser tão sensato.. Há seis dias Iolanda confessou que o traíra. Uma única vez ao longo dos 9 anos de casados. Nove anos em que tentaram ter um filho. Desejo escancarado dela desde quando se conheceram e que ele sabia bem ela não arredaria pé do intento. Todos os exames feitos e satisfatórios para gerar um filho. Mas nada. E há seis dias ela confessara que o tinha traído. Uma única vez. Num dia específico, com um desconhecido. Diante da confissão Adolpho olhara para a figura de Iolanda e não dissera absolutamente nada. Colocando um pouco de tudo dentro da mochila  saíra porta afora. Sem o celular, sem rumo, com a cabeça num emaranhado desconexo de ideias. E amanhã em torno de 10 horas teria que decidir. Atirou-se na cama e esperou amanhecer. A última vez que olhou o relógio eram 5:30. Não sabia se tinha dormido mas as 8 estava no banho. Escolheu a combinação de melhor aparência, dentre as opções de roupas, se vestiu e saiu. Sabia onde ir mas não o que fazer. Chegou até a sala indicada, abriu a porta e lá estava Iolanda sendo preparada para a cesária marcada para  10 horas quando em menos de 30 minutos, mais ou menos, conheceriam Laila. A tão esperada criança que agora sabia, não era, genuinamente, dele. Porque a esposa esperou até a última semana de gravidez para confessar o sórdido plano tão bem organizado em seu campo mental, e executado com precisão, que tinha alcançado o objetivo esperado?! Quando viu a carinha de Laila e seus olhos amendoados e ternos tomou a decisão. Jamais falariam sobre o dia da sua concepção. Era sua filha.