A OUTRA FACE DA MESMA

Estava à janela com seu ar introspectivo, que lhe é peculiar, pensando sobre a imagem que construiu. Depois de tantos desenganos e alguns bons momentos, tantos dias, semanas, meses, anos sobrepostos, ali estava em sua posição de superioridade latente, incomodativa para tantos quantos se aproximam. Que dom natural para se fazer antipática! Agora, no alto dos seus 70 anos, tudo se fazia mais claro para ela. Uma lucidez desagradável dava-lhe a real imagem de si mesma. Neste momento entra a filha. Pessoinha bem difícil, qualidade angariada pela indelicadeza com que se referia a todos a sua volta. Prepotente e inconveniente. Poucos a suportavam. Naturalmente só, mas profissionalmente bem sucedida. Não que eu acredite uma coisa ser consequência da outra. A filha entra, olha para a mãe e começa a desenrolar sua lista de reclamações sobre a humanidade. E penso: Como alguém consegue fazer um balanço tão negativo do seu dia! A mãe já estava acostumada com estas visitas de “descarrego”, quando a criatura fazia uma terapia despejando nela tudo que acumulara nos dias, semanas passadas. Azeda e impertinente, naturalmente pontuava sua fala segundo seu ponto de vista. A mãe ficava a pensar como seria ouvir a outra parte, o outro lado, a visão daquele a quem ela se referia. Em vão tentou, poucas vezes, fazê-la refletir sobre si mesma. Até porque seria como se estivesse diante do seu próprio reflexo no espelho. E a autopercepção da filha certamente deixaria a mãe exposta a sua própria amarga persona. E tudo se repetia.
E se repetiria?

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