IMPACTO DE UM DIA FRIO

Quanto apelo de paz, de renovação do laço afetivo, carrega um largo sorriso?!Com esta intenção acordou naquela manhã. Retomar o convívio com aquela que muito lhe fez chorar. E diante da perspectiva traçada  preencheu seu campo mental com as melhores palavras, aquelas que pudessem acompanhar seu melhor sorriso e saiu. O dia estava mais frio do que imaginara e seu corpo muito magro se ressentiu com o ar gélido da manhã límpida e ensolarada. Caminhou alguns passos e resolveu voltar e pegar um agasalho. Pronto. Tempo suficiente para desistir. O impulso generoso se esvaiu e Clara recuou.Entrou no pequeno apartamento, meticulosamente organizado, e desabou no sofá com todo o peso emocional que decisões trazem para qualquer um. Tinha passado a noite quase sem dormir pensando se devia, não, se poderia perdoar, se poderia rever aquele rosto hoje desgastado na imaginação de Clara, mais pela dureza do coração que pelos anos. Ao acordar, do pouco que dormira,  a ideia lhe pareceu plausível de empreender, de se efetivar. Mas agora o sofrimento gerado por aquela criatura se fazia presente, avançava célere no seu pensamento de forma descontrolada. E Clara mais uma vez chorou. Não mais pelas palavras duras, nem pela crítica contumaz provenientes daquele coração seco e sarcástico, mas pela sua total incapacidade de esquecer! O sorriso imaginado, para compartilhar com sua irmã, ela não conseguia mais visualizar.  As palavras antes imaginadas não lhe pareciam mais formar frases coerentes. O tempo meio que parou e por um segundo teve a impressão que não produzia pensamentos. Estava vazia!  Levantou-se num salto, pegou o casaco e saiu resoluta, assim mesmo, sem nenhum planejamento. Quanto tempo tinha se passado entre a primeira saída e este momento(de total vazio na mente e no coração) transformando a manhã gelada num dia agradável,  quase primaveril?O calor do sol invadiu o rosto de Clara, pálido e esquálido(criatura sem energia, sem vitalidade)e ela se sentiu repentinamente feliz. Fechou os olhos em direção ao sol e aspirou fundo o ar quase quentinho.  Atravessou a rua, apertou a campainha e esperou. Que longo minuto, que tempo diferenciado o de quem não sabe o que o próximo segundo reserva. A porta se abre e um rosto inesperado surge fazendo com que Clara desse um passo atrás pela surpresa. Lavínia, nada surpresa, pelo menos foi o que pareceu aos olhos levemente arregalados de Clara, abriu um largo sorriso e com ternura convidou-a para entrar. Fechou a porta atrás de uma Clara atônita, novamente com a cabeça daquele jeito, sem pensamentos, enquanto Lavínia lhe indicava o sofá, de um estampado floral suave e miúdo, falando, e falando em um tom tão agradável aos ouvidos de uma Clara que só conseguia escutar o som, sem entender nada.As palavras foram escolhidas por Lavínia para esta ocasião, palavras que acompanhariam o sorriso, tantas vezes sonhado, para envolver a doce irmã num dia como este, em que Clara a perdoaria e estaria ali.

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4 comentários sobre “IMPACTO DE UM DIA FRIO

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