DOS PECADORES

Imaginava estar  ali sentado já fazia algumas horas pois o sol meio escondido atrás da ilha  a sua frente anunciava o anoitecer. Tinha o coração leve e sentimentos de gratidão o invadiam. Entre tantas manhãs comuns, e repetitivas, a de hoje continuava presente mantendo nele a sensação de alegria intraduzível, inexprimível em palavras.  Com a cabeça ainda num turbilhão de emoções pensou que não podia entrar a noite ali naquele estado  esquisito de satisfação. Já com o traseiro meio dormente levantou-se e tomou o rumo da sua paróquia. Os pés descalços cobertos pela areia úmida da maré recém baixando. Sabia tanto  de quase todos mas aquela confissão deixou-lhe atônito pela sensação nunca experimentada. Era um misto de paz, de regozijo íntimo, um #nãoseioque, pois tudo era muito novo para ele.Tinha 35 anos, 10 de apostolado, quatro naquela paróquia perdida entre montanhas e o mar. Quatrocentas e vinte e quatro pessoas, contando com ele, moravam naquela pequena vila e uma confessara naquela manhã que o amava. O confessionário bem talhado em madeira, e lustrado diariamente, nunca mais seria o mesmo reduto onde acolhia as dores d’alma, os pecados imaginados, os sonhados e trazidos para a realidade; aqueles pecados que, ao encontrar o pecador na vila ou na pequena capela, formavam uma neblina entre seu olhar e o do absolvido. Sempre pensava, nestes momentos: Que Deus realmente te perdoe! No confessionário era detentor de segredos inimagináveis.    Sabia que sua vida, a partir daquela manhã,  não mudaria em nada externamente, aparentemente, visivelmente para os outros 423 ao seu redor, mas ele tinha um mundo novo para viver por dentro.  Passou a ficar mais tempo que o necessário no cubículo, onde era o intermediário entre o pecador e Deus, a espera de outro encontro com aquela voz, que ouvira por detrás daquele denso véu impedindo o reconhecimento  do rosto.   Voz que não lhe era estranha mas que não conseguiu, nos noventa e sete anos que viveu, juntar a nenhum olhar que denunciasse o doce pecado. Ela nunca mais voltou. No seu último dia na Terra, já acamado e vencido pela inoperância a contento de alguns órgãos, e com outros tantos na iminência de parar de vez, recebeu a visita da voz que lhe sussurrou bem junto ao seu ouvido com melhor audição: Eu ainda te amo! Abriu os olhos mas a vista, desgastada pela idade e sem o recurso dos óculos, não conseguiu visualizar o olhar que tanto buscou. Fechou os olhos e num esforço supremo ele formulou a pergunta: Como sabes que este é o lado que ouço melhor?

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