SERENA ACEITAÇÃO

Ariane, sentada de costas para a estrada atrás dela, sentia a grama roçar nas suas perninhas rechonchudas dos seus quatro anos e  11 meses.  Mês que vem completará 5 anos e, certamente, ganhará uma boneca nova. Sempre foi assim. A cada aniversário uma boneca especial. Agora  olhava meio desolada para o carro com os pneus voltados para cima e  rodando, qual um animal em agonia, mais abaixo dela uns 50  metros. Pensava na sua boneca, que ficara lá dentro, enquanto coçava as pernas sujas de terra e tirava os  cachos loiros meio emaranhados do rostinho um tanto perplexo. Subitamente teve um lampejo de consciência do acontecido e lembrou do  seu irmãozinho, sua mãe e pai que estavam com ela no carro, juntamente com a boneca Mimi. Iam visitar a vovó no interior e a estrada vazia naquela hora da manhã era de um silêncio estranho para a menina acostumada com os sons da cidade.  Mato em ambos os lados de uma estrada asfaltada. Olhou para trás, para todos os lados e finalmente para o carro, novamente, de onde não saia um  barulhinho sequer. Os pneus, parados agora, faziam da imagem um quadro sem vida. Nem som de vento, nem gorjear de pássaros. Tudo parado, estranhamente silencioso e parado. Devido ao  mato  rodeando o carro ela não via as janelas, apenas as partes das portas abaixo dos vidros, os pneus e o fundo do carro. Já tinha visto cenas semelhantes em filmes mas lembrava principalmente da que viu quando o pai comprara as novas cadeirinhas para ela e o irmãozinho de 2 anos. O vendedor mostrou cenas de acidentes e, mesmo distraída no colo de outra vendedora, Ariane viu uma cena igual àquela, de relance.  Na ocasião tinha virado a cabecinha e enterrado o rostinho no ombro da desconhecida. Eles estavam acostumados com as antigas cadeiras mas o pai insistira em comprar as novinhas com mais recursos de segurança. No dia da compra Ariane havia acompanhado o pai pois tinha horário marcado com o dentista e iriam aproveitar a proximidade da loja para fazer a compra, já que iriam sair bem cedinho no dia seguinte.  Olhando para seus pezinhos percebeu que está só com um dos chinelinhos mas isto não a distraiu.  Voltou a lembrança da loja.   Com a analogia da cena logo lhe veio à mente a cena seguinte apresentada pelo vendedor.  Uma menina da idade dela, sorridente e bem sentada na cadeirinha adequada para sua idade, e outra com um menino, do tamanho do  seu irmão, dormindo serenamente ao lado da menina. Olhando para o carro logo abaixo pensou que Arnold devia estar lá dormindo de cabeça para baixo. Bem neste momento, quando pensava em levantar-se e descer o barranco que a levaria a conferir de perto o que lhe passara pela cabeça, apareceu uma moça. Muito parecida com  uma babá que tiveram ano passado e que tinha voltado para sua cidade, segundo resposta da mãe, quando  Ariane sentiu sua falta numa manhã de segunda-feira. Manoela era o nome dela. Olhando melhor era ela mesma, pensou Ariane. Trazia sua boneca abraçada junto ao peito e sentou-se ao lado da menina. Faceira por ver Mimi muito bem, apenas com o vestido meio sujo, sorriu e esticou os bracinhos pedindo para Manoela entregar sua boneca. Já com Mimi no colo, e arrumando seus cabelos distraidamente, falou com Manoela sem olhá-la: Eles morreram, né? Assim como tu, eles morreram. Eu  sempre soube que não tinhas voltado para casa pois eras minha amiga querida e eu sabia que irias me dar adeus se tivesse mesmo que ir. Eu também não sobrevivi a este acidente, como eles também não, (dizia apontando para o carro) e por alguma razão, que não entendo agora, não posso estar com o papai, a mamãe e Arnold, ainda! Vamos Manoela, disse levantando-se e limpando o shortinho da terra e da grama. Vamos para onde é preciso ir.

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