UMA CHAVE

Tomou certa distância e se trombou com o ombro de encontro à porta na tentativa de arrombá-la. Nos filmes sempre funcionava mas Brenda logo pensou no hematoma que surgiria, no seu braço, diante da porta intacta sob seu frágil impacto. E a maldita chave em algum lugar, perdida dentro de casa, certamente rindo e pensando na estupidez de quem guarda algo sem saber onde procurar depois. Se chave pensasse e pudesse rir, claro! Brenda, escorregando as costas pela porta, senta-se no chão desanimada. Imaginando se poderia suportar entrar naquele cômodo que chamavam de “cantinho”. Chamavam… Um embrulho no estômago trouxe um amargor à garganta e ela se negou a explodir em choro. Já tinha esgotado seu manancial de lágrimas.  Há quase dois meses Martin morreu deixando para trás uma casa construída nos pequenos detalhes, ao gosto dos dois, e uma mulher agora esgotada de recursos para superar a saudade. De repente uma rajada de vento entrou, certamente por alguma fresta da janela do quarto, desde então fechada, e passou por baixo da porta trazendo para os sentidos de Brenda o perfume do tabaco usado por Martin. O perfume que exalava do cachimbo quando ele fumava e seu olhar meio de lado se fizeram presentes na mente, no coração e no corpo todo, reavivando em Brenda lembranças lindas mas tão, tão dolorosas agora. Queria entrar e se aconchegar no sofá de veludo cinza, olhar as cortinas esvoaçando pela brisa do entardecer nas montanhas. Queria entrar e mexer nos papéis amontoados sobre a mesa usada como amparo para tudo;  livros, xícaras de chá, livros com a leitura em andamento, contas a pagar e o notebook dos dois, lado a lado. Estava tudo lá como anoiteceu e como amanheceu no dia em que Martin infartou aos 43 anos.  Ao chegar em casa, retornando do hospital depois de todo o esforço inútil dos médicos para retornar Martin à vida, Brenda abriu a porta do “cantinho”, o suficiente para pegar a chave, fechando-a imediatamente chaveando-a e… Sim, agora lembrava! Colocou a chave no bolso do jeans que vestia. Aquele jeans, e a camiseta, que vestia naquele dia foram esquecidas em algum lugar e depois acomodados nas caixas de doação, das roupas de Martin, e enviadas duas semanas depois para o centro espírita que  frequentavam. Quem teria recebido a calça, quem teria pegado a chave e se perguntado de onde era?!

A chave

A triagem do roupeirinho, como era chamado o local onde eram deixadas as doações de roupas, tinha um sistema em que as peças eram recebidas, revistadas e enviadas para uma voluntária fazer a lavagem. Se preciso, feitos os reparos. Ao receber as cinco caixas naquela tarde, Paola ficou impressionada  com as peças acomodadas com um carinho e um capricho nunca visto por ela. Abriu as quatro primeiras. Todas com roupas masculinas  e, pela numeração, de um homem magro e alto. Na quinta caixa se deparou com uma camiseta e uma calça jeans, que tinham sido tiradas do corpo,  jogadas sobre as roupas masculinas organizadas no mesmo padrão das outras caixas.  Paola deduziu que tinham sido tiradas do corpo e atiradas na caixa já que a camiseta estava do avesso e o jeans com uma perna meio pra dentro meio pra fora. Estranhou por serem as únicas peças femininas e em desordem!!!! Ao pegar a calça e fazer a revisão encontrou uma chave. O perfume de fumo para cachimbo fez com que instintivamente levasse a chave ao nariz. Sentiu o aroma delicioso e um arrepio percorreu seu corpo. Levou a chave até a caixa onde guardavam os objetos encontrados e a colocou lá. A chave, impregnada das emoções envolvidas pela porta do ”cantinho”, resignada com seu destino,  acomodou-se entre os tantos outros objetos e pensou: Um dia ela me encontra! Isso se chave pudesse se resignar ou pensar!   Claro!

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