TOMADA DE DECISÃO

À mercê das tantas implicações do momento em que vivia, Adolpho não conseguia manter uma coerência no encadeamento das ideias. Ora achava que estava certo, ora pensava ser um tolo.  Não era alto nem baixo, nem musculoso nem raquítico, nem gordo nem magro, nem feio nem bonito.  Se o chamassem de feio não concordaria mas se dissessem que era bonito não acreditaria, até porque nunca tinha sido assediado como julgava serem os que são bonitos. Mas seus problemas não giravam em torno da sua aparência que não era ruim avaliando-o como um todo. Mas era inteligente, por isso a ideia de ser um tolo pouco fixava no seu pensamento. O que mais incomodava era a incerteza do que seria a melhor escolha. E se a decisão, que precisava ser tomada na manhã seguinte, o certificasse como um tolo?! E precisava ser na manhã seguinte?  Sim, pensou. Era o prazo fatal. Olhou para a mochila, jogada na poltrona do confortável quarto do hotel, aberta e com algumas poucas peças de roupas espalhadas, dobradas, usadas, amassadas que vinham sendo arremessadas ali fazia exatos seis dias. O sexto dia de tormento, de pensamentos desalinhados com seu modo de ser tão sensato.. Há seis dias Iolanda confessou que o traíra. Uma única vez ao longo dos 9 anos de casados. Nove anos em que tentaram ter um filho. Desejo escancarado dela desde quando se conheceram e que ele sabia bem ela não arredaria pé do intento. Todos os exames feitos e satisfatórios para gerar um filho. Mas nada. E há seis dias ela confessara que o tinha traído. Uma única vez. Num dia específico, com um desconhecido. Diante da confissão Adolpho olhara para a figura de Iolanda e não dissera absolutamente nada. Colocando um pouco de tudo dentro da mochila  saíra porta afora. Sem o celular, sem rumo, com a cabeça num emaranhado desconexo de ideias. E amanhã em torno de 10 horas teria que decidir. Atirou-se na cama e esperou amanhecer. A última vez que olhou o relógio eram 5:30. Não sabia se tinha dormido mas as 8 estava no banho. Escolheu a combinação de melhor aparência, dentre as opções de roupas, se vestiu e saiu. Sabia onde ir mas não o que fazer. Chegou até a sala indicada, abriu a porta e lá estava Iolanda sendo preparada para a cesária marcada para  10 horas quando em menos de 30 minutos, mais ou menos, conheceriam Laila. A tão esperada criança que agora sabia, não era, genuinamente, dele. Porque a esposa esperou até a última semana de gravidez para confessar o sórdido plano tão bem organizado em seu campo mental, e executado com precisão, que tinha alcançado o objetivo esperado?! Quando viu a carinha de Laila e seus olhos amendoados e ternos tomou a decisão. Jamais falariam sobre o dia da sua concepção. Era sua filha.