NÃO CONCLUA TÃO RÁPIDO!

Cheguei na praça de alimentação do shopping bem mais cedo que de costume. Fiz meu pedido e com minha plaquinha numerada em mãos me dirigi a uma mesa livre que, como era bem antes da hora fatal para o almoço, foi fácil encontrar. Sentei-me em frente a uma mesa ocupada por mãe e filha, supus, uma vez que a acompanhante da menina estava de costas para mim. A menina, quase uma mocinha, devia estar perto dos 12 anos e acima do peso. Nossos olhos se encontraram, ela baixou os dela e continuou a comer. Fiquei observando-a a comer e, nossa, a mocinha não tinha a menor elegância no uso do talher. Segurava o garfo como uma pá que enterrava no monte formado pela refeição dela. Nos intervalos me enviava um sorriso e eu esboçava um de volta pensando: Porque a mãe não a ensinou  manusear o talher? Coisa tão simples, ainda mais para a idade da mocinha, quase debutante. Enfim, a coisa foi se repetindo, ela cravava o garfo na comida e enfiava, literalmente, o bocado na boca. Ao finalizar a mastigação e engolir, sorria para mim. Um sorriso completo onde os olhinhos participavam e os ombros chegavam a encostar nas orelhas, tamanha satisfação dela.  Era um sorriso lindo e eu não conseguia desviar meu olhar nem conter meus pensamentos de como usar um talher adequadamente. Por fim meu prato chegou. Quando ia começar a comer e, pela graça de todos os santos, me distrair da menina, elas se levantaram e eu tive um choque. A criança sofria de uma má formação nos pés, pernas, braços e mãos que faziam-na balançar o corpo todo tornando uma função tão simples, como andar, numa bizarra e complicada atividade. Para meu total destrambelhamento ela se aproximou e com o mesmo encantador sorriso, me disse: “Sabe, o senhor se parece muito, mas muito mesmo, com meu avô. Ele morreu quando eu tinha 7 anos. Hoje eu tenho 13. Ele que  me ensinou a comer assim direitinho, acertando a boca para não derramar a comida. Especialmente hoje fiz o meu melhor pois percebi que o senhor me admirava e fiquei toda orgulhosa. O senhor  parecia  meu avô feliz por me ver tão bem.” Levantei-me trêmulo, apesar de só ter 65 anos, ofereci meu melhor sorriso e me dirigi à mãe, que tranquilamente aguardava o desfecho da situação, e pedi licença para abraçar a menina. Ela assentiu e logo me vi enlaçado pelo abraço mais generoso que já havia recebido. Envergonhado pelos pensamentos que me ocorreram no inicio deste encontro, me dirigi à menina e disse: “Podes me perdoar?”. Ela sorriu e respondeu: “Sempre que estou sentada ninguém nota minhas dificuldades. Mas não posso passar a vida sentada, né? Tenho uma vida para viver.” E se foi. Ela tranquila com seus desafios e eu com muito para pensar sobre mim mesmo!

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