TRÊS VIDAS!

São exatamente 7h55min, Bento levanta-se de um salto sem despertador, por instinto. Enrola com capricho o que usa como colchão e cobertor para dormir. Lá vem Dona Maria no passo lento dos seus 60 anos. Viúva, há 15 anos conta com o auxílio de Bento para subir a porta de aço da casa lotérica que herdou do marido. Com um bom dia de um  sorriso quase sem dentes de Bento, Maria lhe entrega as chaves e ele prontamente faz sua tarefa. Desde os 15 anos morando na rua depois de ser apontado, tachado, acusado de louco em sua cidade natal, por ver espíritos, falar com espíritos, saber de coisas sobre algumas pessoas que, ingenuamente, falava para elas com o objetivo de prevenir, alertar, ajudar. Era o que pensava ser certo. Agora aos trinta anos “mora” pelas ruas de Porto Alegre. Sem drogas, quase sem dentes mas com os olhos azuis mais lindos que se possa imaginar, herdados da mãe. Uma alemã amorosa mas completamente ignorante das coisas do espírito, sobre mediunidade ostensiva, causa da suposta “loucura” de Bento. Abrem a loja, ele espera Maria lhe alcançar o café com leite e o bolo feito com carinho especialmente para ele. Começam a chegar os funcionários  e Bento se recolhe para a lateral na frente da loja, sentando-se sobre o rolo com seus pertences. É razoavelmente lúcido e faz uma espécie de segurança para a lotérica. Pela capacidade de perceber intenções já evitou mais de 20 assaltos à loja. Corre o pretendente ao assalto apenas se levantando  e indo na direção dele com seu metro e noventa de altura, também herança da mãe. Não é mais sujo porque Dona Maria exige um banho, pelo menos semanal, foi o que conseguiu negociar com Bento. E é quando troca de roupa.

Juliana acorda às 7 horas e às 7h40 sai em direção ao seu consultório no centro. Vai à pé e mesmo com o padrão de violência que a cidade apresenta, já há alguns anos, não se amedronta. Acha um absurdo não poder andar as cinco quadras que separam seu apartamento do consultório dentário. Moça do interior, estudou e formou-se em Odontologia e ficou por aqui. De segunda a sexta passa diante de Bento quando ele já está ajudando Maria a levantar a porta. Seus olhos se encontram. Algumas vezes ele lhe sorri, outras apenas olha para ela. Ela não sabe nada dele mas se penaliza do estado dos dentes. Parece que o profissional de cada área está sempre atento e focado naquilo que entende. Mas para Juliana é mais que isso. Ela não sabe explicar porque Bento lhe causa uma forte emoção. Ela pensa ser a condição de morador de rua que é a única informação que captou diante do estado escabelado, barbudo, sujo, com que ele geralmente se apresenta.  Vez ou outra percebe que tomou banho e mudou a roupa. Tem vontade de falar com a senhora que está sempre com ele mas alguma coisa a impede. Queria se oferecer para arrumar os dentes daquele homem que a emociona tanto. Quem sabe um dia!

Bento “sente” quando Juliana vai virar a esquina e encontrar seu olhar com ou sem sorriso. Sem sorriso são aqueles dias em que ele está consciente da ligação deles. Como médium tem lapsos de lembranças das vidas passadas dele e, menos frequente, de outras  pessoas também. Aquela mulher lhe causa uma profunda saudade de outra vida quando formavam um casal apaixonado na corte francesa, quando ele era um conde e ela sua adorada condessa. A dor que lhe marca a alma é por saber que ela é sua amada, e ela não reconhecê-lo faz com que não consiga sorrir. Ele sabe a causa desta encarnação tão distante da felicidade que vivenciaram naqueles tempos e se cala, sempre que tem o ímpeto de se fazer reconhecer. Ela não entenderia. Chamaria de louco! Quando o olhar vem acompanhado do sorriso é naqueles dias em que sente a atração natural de um homem por uma bela mulher, apenas. Sorri distanciado da lucidez da condição tão diferente dele, um homem de rua sem nada nem ninguém, e dela, uma mulher belíssima e de modos tão finos. Um homem sem lembranças que sorri,  sem dores na alma, sem lembrança do conde e da condessa. Mas sem ninguém, não!  Tinha Dona Maria.

Dona Maria,  sem filhos, viúva desde seus 45 anos.  Foi feliz até o dia em que o marido não acordou para seu dia a dia tão comum. Sofreu a perda do companheiro mas seguiu com a rotina de abrir a lotérica, como fazia com ele, mas agora desprovida da alegria de viver, apenas sobrepondo os dias, as semanas, os anos. Até que encontrou Bento numa manhã muito fria, enrolado em si mesmo dormindo bem no meio da porta de aço que ela tinha cada vez mais dificuldade de levantar. Abaixou-se e tocou levemente em seu ombro fazendo o rapaz acordar sobressaltado. O olhar daquele azul tão límpido fez Maria encher seus próprios olhos de lágrimas. Naquele tempo Bento não tinha paradeiro certo para dormir mas sentiu imediatamente, ao se deparar com a meiga, e triste muito triste senhora, que achara um lugar depois de quase quatro anos zanzando pelo centro de Porto Alegre. A partir daquele dia, toda manhã de segunda a sábado, Maria faz um bolo, um café com leite e leva para Bento. Ele a ajuda a abrir a loja e cuida para que trabalhassem seguros. Mas isso era antes… Ela não entendia muito bem as coisas que ele lhe dizia, na maioria das vezes. Doutras ficava muito feliz com ele. Principalmente quando  lhe falava com as palavras e trejeitos do seu amado marido. Foi a partir deste momento que começou a ler, estudar mesmo, sobre a vida e a vida depois da vida. Até que começou a entender que Bento servia de intermediário para que o marido se comunicasse com ela. Aprendeu também que devia se despedir do amado companheiro e lhe indicar que seguisse seu caminho, que entendesse que estava em outro plano, fora da matéria. Foi o que um dia fez. E nunca mais, nem ela nem Juliana, viram Bento. Tinha cumprido seu propósito. Desencarnou três dias depois, atropelado não muito longe dali,  e foi feliz planejar a próxima vida, livre para esperar por Juliana. Seu eterno amor!

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