VOANDO POR AÍ

Laura, 45 anos, diretora de uma grande Empresa, voa com frequência em função da exigência da profissão. E nunca gostou de conversas bobas tipo como seria o voo, sobre o tempo, sobre quão chato eram as esperas. Enfim… Conversas ocas. Então desenvolveu uma metodologia de espera para não ser incomodada. Fazia para se distrair, não tinha outras intenções. Sempre de olhos baixos lendo alguma coisa no seu iPad. Às vezes, poucas vezes,  apenas fingia ler. Pois bem, graças a este costume começava a conhecer as pessoas pelos sapatos, quando ficava entediada de olhar para a tela onde lia ou fingia ler. É, pelo sapatos. Ia levantando os olhos a partir dos pés das pessoas. Desenvolveu esta arte (Bem difícil.  Experimente!) de ir tipo escaneando, lentamente, sem saltar as partes ou ir de supetão dando de cara com a pessoa. E gostava de fazer elucubrações, a partir deste ponto de vista, (dos pés) e tirando conclusões ao percorrer cada pedaço (da pessoa).  Ria sozinha das suas conclusões. E foi sem poder conter o riso que conheceu Tiron.  Sapa tênis, tamanho 42/44, homem alto, concluiu. Limpos. Caprichoso. Calça jeans quase padrão, logo não era um jovem. Garoto. Guri. Fedelho. Classificava assim todos com menos 40 anos. Coxas firmes. Uia… Óóóóó´, lamentou. Estava com uma revista no colo! Camiseta polo de cor única. Ela odiava as com listras. Mangas longas, que pena… não poderia apreciar os pelos dos braços. Mãos grandes, uma sobre a revista, outra segurando uma pequena valise de mão que estava apoiada na cadeira ao lado. Valise de couro marrom. Usada. Não velha. Voltando para as mãos. Nada de anel ou aliança. Homens usando anéis lhe causava asco. Aliança indicava “fique longe”, se bem que os “com” eram tão ou mais disponível, não que ela buscasse qualquer deles. Laura já tinha tido vários relacionamentos. Tipo rápido, médio  e 6 anos, que foi seu mais longo. Todos com términos  bem definidos. Com choro, sem choro, com raiva, decepção, enfim… Sofrência atual? Zerada. Mas vamos a descoberta de Tiron. Onde estava? Nas coxas…não.! Já passei das coxas. Mas estava nas mãos que dizem muito de um homem. Podia vê-las bem uma vez que os assentos da sala de embarque, daquele aeroporto, eram bem próximas.  Metro e meio de distância entre o frente a frente dos sentados. Unhas limpas e bem cortadas. A  avaliação ia tornando o homem do tipo de bom padrão para Laura. Ombros largos. Já havia passado pelo abdômen e gostado. Tinha uma protuberância que considerava  razoável. Homem muito sarado nessa idade lhe parecia um bobão querendo ter 18 anos. Bem, isso é coisa de cabeça de Laura. Chegou ao colarinho que tinha os dois botões abertos mostrando um pescoço sensual, sem correntinhas, o que lhe deu grande alívio. Homens de correntinha lhe pareciam afeminados, com cordões de grossos elos lhe causavam uma imediata paralisação no escaneamento e procurava outros pés.  Não era o caso. Uns pelos discretos se mostravam tímidos no pouco que via do peito.  Chegou na linha da boca e encontrou duas carreiras de lindos dentes. Sorriu para aquela boca, passou pelo nariz rapidamente e encontrou os olhos que sorriam junto com a boca e faziam ruguinhas, nos cantos, de enlouquecer qualquer uma. Os olhos dele se estreitaram e fizeram aquela expressão de quem estava sabendo o que Laura esteve fazendo, e provavelmente pensando, ao percorrer sua pessoa naqueles minutos. Ele havia acompanhado cada expressão dela e fez enorme esforço para não mover um músculo, com receio de espantá-la, ao longo do que ele também associou a um escaneamento. Mesmo quando ela chegou na altura da revista e fez um muxoxo, claramente decepcionada. Ali foi um grande teste pois pensou em pegar a revista rapidamente. Mas venceu o desafio. Passado este momento ele notou que ela começava a esboçar um sorriso que ele achou lindo, doce e sedutor. Aliás ele estava se sentindo como se ela o despisse, durante o percurso do olhar  aí a razão, o anseio, de pegar a revista pois pensou que ela poderia ficar instável. A revista.  Agradeceu a firmeza do jeans. Percebeu que ela o  avaliava sem um interesse em particular, pareceu-lhe mesmo um hobby, peculiar, mas um hobby. Só que quando seus olhos se encontraram estavam ambos sorrindo. Voaram  juntos lado a lado graças a um pequeno troca troca de poltronas que ele gentilmente argumentava como ser necessário para viajar junto à esposa, o que causava um leve estranhamento, provocador de batimentos cardíacos descompensados, em Laura. Depois dessa fizeram muitas viagens juntos e ela ensinou o jogo a Tiron e começaram a apostar quem conseguia fazer a melhor avaliação. As conclusões eram discutidas e as que podiam ser corroboradas eram contabilizadas como pontos. Quem perdia ficava à mercê do que o outro lhe impingiria, à título de castigo. A falta de habilidade ou ansiedade de ir dos pés aos peitos de alguma mulher, ou se deter por tempo considerado inadequado, por Laura, nas coxas da dita cuja desencadeava uma pena pesada. Tiron também considerava falta grave quando Laura se encantava com aquele espaço entre as coxas e o abdômen, sem revistas que o preservasse.  E quem perdia tinha que pagar a “prenda”,  às vezes durante o voo… Uia!!!!

MAS BAH, QUE LOUCA!

Quando desceu do ônibus ainda estava estonteada pela noite mal dormida, pelo plantão acumulado no hospital, e as quatro horas da viagem de ônibus. Não tinha carro e nunca gostou de dirigir mas tinha carteira. Com a roupa amarfanhada e o cabelo em total caos, apesar de cortados bem curtos. O que estava prestes a fazer era uma insanidade mas a personalidade destemida,  teimosa para alguns, julgava ser o melhor. A rodoviária àquela hora, quase noite,  cheirava a pastel frito e uma mistura de  “fedores” nauseantes. Emília forçou uma  respiração curtinha para não inspirar o mau cheiro mas não adiantou, quase vomitou.  Ia abrir o aplicativo para chamar um carro mas se deparou com aquele mar cor de laranja dos táxis de Porto Alegre. Não tinha fila e estava com pressa. Embarcou num carro e já que não tinha bagagem, só uma mochila, o motorista nem se moveu. Indicou o endereço no bairro Guarujá. Era longe e teria um bom tempo para pensar. Começou a passar um filme no pensamento.  Conhecia a cidade muito bem pois era dali e vivera ali até passar no vestibular de medicina na UPF (Universidade Passo Fundo) aos 19 anos. Agora formada e trabalhando num hospital da cidade nem pensava em voltar para o furdunço da capital. Sem pai nem mãe (tinham morrido num acidente um ano antes dela se formar), apenas um irmão que morava em São Paulo, não tinha nenhum vínculo com a cidade nem tinha qualquer sentimento de saudade. Criara raízes e fizera amigos na faculdade e no trabalho. Era feliz. Era feliz?! Sim, era feliz. E estava no táxi indo na direção de confirmar isso. O carro parou em frente a uma casa baixa no fundo de um imenso gramado. O lugar era calmo e não havia ninguém à vista. Olhou o relógio, vinte horas. Normal a quietude. A casa era afastada e aquele recanto do bairro especialmente sossegado. Pagou o motorista, desceu e se aproximou do portão duplo de ferro, mais alto que ela quase um metro, calculou. Procurou uma campainha mas não levou um minuto e Ramiro surgiu na porta da casa, vestindo um terno preto alinhado e camisa, sem gravata, azul. Com a cuia de chimarrão na mão, claro! Ele acionou algum controle que abriu o portão. Emília entrou e percorreu a distância até a casa pelo caminho marcado pelos pneus do carro. Para se acalmar contava os passos com o olhar fixo em Ramiro, tentando decifrar os pensamentos dele. Quarenta e oito passos e estavam frente a frente. Ele sorriu, largou a cuia no chão e abriu os braços enlaçando ela e a mochila. Logo surgiram, de dentro da casa, Manuela e Murilo de 9 e 7 anos, respectivamente. Fizeram a maior gritaria abalroando o casal numa euforia de abraços, beijos, pulinhos e gritinhos de alegria. A chegada dela era a confirmação de que o casamento ia sair mesmo! E o melhor, iriam morar em Passo Fundo! Cidade que adoravam, onde moravam os avós paternos e de onde o pai, viúvo e também médico, havia recebido o convite para comandar uma equipe de residentes, no mesmo hospital onde trabalhava Emília. Ramiro havia condicionado a mudança a aceitação de Emília  casar com ele. Ali estava a resposta dela. No olhar, no abraço, no cabelo em total desalinho denotando que a decisão tinha sido espontânea pois, certamente,  estava vindo direto de um exaustivo plantão.  Foi neste momento que apareceram os gêmeos de 2 aninhos, no colo da velha babá…Então?  Quem aí não a chamaria de insana…Os bracinhos dos gêmeos querendo ir para o colo dela dissiparam qualquer incerteza. Era muito feliz!

UMA CHAVE

Tomou certa distância e se trombou com o ombro de encontro à porta na tentativa de arrombá-la. Nos filmes sempre funcionava mas Brenda logo pensou no hematoma que surgiria, no seu braço, diante da porta intacta sob seu frágil impacto. E a maldita chave em algum lugar, perdida dentro de casa, certamente rindo e pensando na estupidez de quem guarda algo sem saber onde procurar depois. Se chave pensasse e pudesse rir, claro! Brenda, escorregando as costas pela porta, senta-se no chão desanimada. Imaginando se poderia suportar entrar naquele cômodo que chamavam de “cantinho”. Chamavam… Um embrulho no estômago trouxe um amargor à garganta e ela se negou a explodir em choro. Já tinha esgotado seu manancial de lágrimas.  Há quase um ano Martin morreu deixando para trás uma casa construída nos pequenos detalhes, ao gosto dos dois, e uma mulher agora esgotada de recursos para superar a saudade. De repente uma rajada de vento entrou, certamente por alguma fresta da janela do quarto, desde então fechada, e passou por baixo da porta trazendo para os sentidos de Brenda o perfume do tabaco usado por Martin. O perfume que exalava do cachimbo quando ele fumava e seu olhar meio de lado se fizeram presentes na mente, no coração e no corpo todo dela, reavivando lembranças. Queria entrar e se aconchegar no sofá de veludo cinza, olhar as cortinas esvoaçando pela brisa do entardecer nas montanhas. Queria entrar e mexer nos papéis amontoados sobre a mesa usada como amparo para tudo;  livros, xícaras de chá, livros com a leitura em andamento, contas a pagar e o notebook dos dois, lado a lado. Estava tudo lá como anoiteceu e como amanheceu no dia em que Martin infartou aos 43 anos.  Ao chegar em casa, retornando do hospital depois de todo o esforço inútil dos médicos para retornar Martin à vida, Brenda abriu a porta do “cantinho” o suficiente para pegar a chave. Fechou imediatamente a porta e chaveou e… Sim, agora lembrava! Colocou a chave no bolso do jeans que vestia. O jeans e a camiseta que vestia naquele dia foram esquecidas em algum lugar e depois acomodados nas caixas de doação, das roupas de Martin, e enviadas duas semanas depois para o centro espírita que  frequentavam. Quem teria recebido a calça, quem teria pegado a chave e se perguntado de onde era?!

A chave

A triagem do roupeirinho, como era chamado o local onde eram deixadas as doações de roupas, tinha um sistema em que as peças eram recebidas, revistadas e enviadas para uma voluntária fazer a lavagem. Se preciso, feitos os reparos. Ao receber as cinco caixas naquela tarde, Paola ficou impressionada  com as peças acomodadas com um carinho e um capricho nunca visto por ela. Abriu as quatro primeiras. Todas com roupas masculinas  e, pela numeração, de um homem magro e alto. Na quinta caixa se deparou com uma camiseta e uma calça jeans, que tinham sido tiradas do corpo,  jogadas sobre as roupas masculinas organizadas no mesmo padrão das outras caixas.  Paola deduziu que tinham sido tiradas do corpo e atiradas na caixa já que a camiseta estava do avesso e o jeans com uma perna meio pra dentro meio pra fora. Estranhou por serem as únicas peças femininas. Ao pegar a calça e fazer a revisão encontrou uma chave. O perfume de fumo para cachimbo fez com que instintivamente levasse a chave ao nariz. Sentiu o aroma delicioso e um arrepio percorreu seu corpo. Levou a chave até a caixa onde guardavam os objetos encontrados e a colocou lá. A chave, impregnada das emoções envolvidas pela porta do ”cantinho”, resignada com seu destino  acomodou-se entre os tantos outros objeto e pensou: Um dia ela me encontra. Isso se chave pudesse se resignar ou pensar!   Claro!

SERENA ACEITAÇÃO

Ariane, sentada de costas para a estrada atrás dela, sentia a grama roçar nas suas perninhas rechonchudas dos seus quatro anos e  11 meses.  Mês que vem completará 5 anos e, certamente, ganhará uma boneca nova. Sempre foi assim. A cada aniversário uma boneca especial. Agora  olhava meio desolada para o carro com os pneus voltados para cima e  rodando, qual um animal em agonia, mais abaixo dela uns 50  metros. Pensava na sua boneca, que ficara lá dentro, enquanto coçava as pernas sujas de terra e tirava os  cachos loiros meio emaranhados do rostinho um tanto perplexo. Subitamente teve um lampejo de consciência do acontecido e lembrou do  seu irmãozinho, sua mãe e pai que estavam com ela no carro, juntamente com a boneca Mimi. Iam visitar a vovó no interior e a estrada vazia naquela hora da manhã era de um silêncio estranho para a menina acostumada com os sons da cidade.  Mato em ambos os lados de uma estrada asfaltada. Olhou para trás, para todos os lados e finalmente para o carro, novamente, de onde não saia um  barulhinho sequer. Os pneus, parados agora, faziam da imagem um quadro sem vida. Nem som de vento, nem gorjear de pássaros. Tudo parado, estranhamente silencioso e parado. Devido ao  mato  rodeando o carro ela não via as janelas, apenas as partes das portas abaixo dos vidros, os pneus e o fundo do carro. Já tinha visto cenas semelhantes em filmes mas lembrava principalmente da que viu quando o pai comprara as novas cadeirinhas para ela e o irmãozinho de 2 anos. O vendedor mostrou cenas de acidentes e, mesmo distraída no colo de outra vendedora, Ariane viu uma cena igual àquela, de relance.  Na ocasião tinha virado a cabecinha e enterrado o rostinho no ombro da desconhecida. Eles estavam acostumados com as antigas cadeiras mas o pai insistira em comprar as novinhas com mais recursos de segurança. No dia da compra Ariane havia acompanhado o pai pois tinha horário marcado com o dentista e iriam aproveitar a proximidade da loja para fazer a compra, já que iriam sair bem cedinho no dia seguinte.  Olhando para seus pezinhos percebeu que está só com um dos chinelinhos mas isto não a distraiu.  Voltou a lembrança da loja.   Com a analogia da cena logo lhe veio à mente a cena seguinte apresentada pelo vendedor.  Uma menina da idade dela, sorridente e bem sentada na cadeirinha adequada para sua idade, e outra com um menino, do tamanho do  seu irmão, dormindo serenamente ao lado da menina. Olhando para o carro logo abaixo pensou que Arnold devia estar lá dormindo de cabeça para baixo. Bem neste momento, quando pensava em levantar-se e descer o barranco que a levaria a conferir de perto o que lhe passara pela cabeça, apareceu uma moça. Muito parecida com  uma babá que tiveram ano passado e que tinha voltado para sua cidade, segundo resposta da mãe, quando  Ariane sentiu sua falta numa manhã de segunda-feira. Manoela era o nome dela. Olhando melhor era ela mesma, pensou Ariane. Trazia sua boneca abraçada junto ao peito e sentou-se ao lado da menina. Faceira por ver Mimi muito bem, apenas com o vestido meio sujo, sorriu e esticou os bracinhos pedindo para Manoela entregar sua boneca. Já com Mimi no colo, e arrumando seus cabelos distraidamente, falou com Manoela sem olhá-la: Eles morreram, né? Assim como tu, eles morreram. Eu  sempre soube que não tinhas voltado para casa pois eras minha amiga querida e eu sabia que irias me dar adeus se tivesse mesmo que ir. Eu também não sobrevivi a este acidente, como eles também não, (dizia apontando para o carro) e por alguma razão, que não entendo agora, não posso estar com o papai, a mamãe e Arnold, ainda! Vamos Manoela, disse levantando-se e limpando o shortinho da terra e da grama. Vamos para onde é preciso ir.

COISA DE DOIDOS?

Calor infernal, inverno glacial, chuvas torrenciais…terra de extremos! Lídia também é assim: chora copiosamente, ri escandalosamente, ama incondicionalmente, esbraveja ruidosamente.  No mais é normal?! Sei não. Avaliem no final do Conto. Apaixonou-se imediatamente, à primeira vista,  por um sujeito pelas costas. Isso, o sujeito avaliava um quadro e Lídia avistou-o de fora, de costas dentro da ampla loja envidraçada. Explicando a loja: Manolo, rico e desocupado, resolveu um belo dia pintar. Telas. E pintou 11 quadros de 1,50m x 1,00m. Eu chamaria de um amontoado de tintas, um mesclado de cores, e ele também reconheceu de pronto sua total falta de talento. Mas era rico. Comprou uma loja imensa com fachada totalmente de vidro e expôs lá seus 11 quadros. Também colocou uma confortável poltrona mais à direita na entrada, (único móvel da loja) indisponível para os visitantes  pois era onde ficava sentado apreciando os que passavam lá fora, com o olhar espichado para  dentro, e se deparavam  com aquela figura ali sentada e aqueles imensos quadros.  Apesar de bem relacionado não chamou nem avisou ninguém para divulgar sua falta de talento. Quando lhe perguntavam  o que fazia e onde, dizia que administrava seus bens de uma poltrona com uma vista bem agradável donde via pessoas, as mais diversas, passarem por ele. Ninguém perguntava mais nada. Ficava por isso mesmo. As pessoas não estão muito interessadas nas respostas. Pois bem,  voltemos para a loja. Ar condicionado potente para invernos e verões extremos…Muitos só passavam pela calçada, alguns entravam. E Manolo podia quase ler os pensamentos “dos alguns”. Calor do inferno lá fora e dentro ambiente agradavelmente refrigerado; frio glacial lá fora e dentro aconchegante calor. Os alguns entravam buscando este conforto e para justificar ficavam mais tempo que necessário “apreciando” as obras de Manolo. Então! Foi assim que numa tarde muito fria, Lídia, entrando na Manolo’s Galery apaixonou-se por Miro antes mesmo dele virar-se e ela se deparar com aquele bigode tipo Salvador Dali. Mulher de extremos correu ao encontro dele e atirou-se em seus braços. (Lembram? Ele estava de costas aproveitando o calor do ambiente, fingindo apreciar um quadro). Imaginem o espanto do homem que imediatamente recebeu do cérebro o comando associativo: fique calmo, esta louca está só te confundindo com alguém! Lídia estava gelada pelo frio lá fora então Miro concluiu rapidamente: deve estar com hipotermia! E de conclusão em conclusão aquele abraço foi se prolongando e o aconchego dos corpos transmitindo muitas, muitas ideias para Miro. Afastaram-se só um pouco, o suficiente para se olharem nos olhos, mantendo os braços enlaçados um no outro. Manolo aparvalhado, nunca tinha visto aqueles dois, chaveou a porta e sentou-se novamente para apreciar o desenrolar da cena. A loja muito ampla, eles estavam bem ao fundo, logo Manolo não podia ouvir nada. Depois  de uns 40 minutos sem se desvencilhar,  Lídia e Miro, agora de mãos dadas, vieram na direção de Manolo. Convidaram-no para padrinho e casaram-se na galeria. Tinham muitos amigos, a festa foi linda e Manolo vendeu todos seus quadros para espanto de muitos, não só de alguns. Estão casados há seis anos, Manolo morreu de pneumonia sem pintar mais nada,  e eles herdaram a loja que hoje é um antiquário onde Miro deposita as tralhas que acumulou desde sempre. Dentre elas peças belíssimas, estas sim, de arte. Apegado a cada uma delas demove qualquer um de efetivar a compra. Lídia, que tem uma voz de comando impressionante sobre o marido, sempre chega a tempo de vender o objeto pra imenso sofrimento de Miro que, nestas horas, como um cachorro acuado,  vai e senta na poltrona de Manolo  vendo o comprador passar por ele com aquela cara de satisfação  de quem tirou o doce de uma criança. Tem gente assim, fazer o quê?

DO LAR

Sol quente daquele tipo que a pessoa pensa não aguentar nem mais um passo. Sara suava mesmo vestindo uma bermuda leve, camiseta regata e chinelos. A criança no colo estava vermelha e toda molhada num misto de suor e  urina que certamente vazou da fralda barata. Seu bebê não cheirava como Melissa, a filha da patroa, quando neném. Não agora quando transpunha , à pé, as três quadras para chegar ao trabalho. Melissa contava 4 anos quando conheceu Liandro e foi quase maldosa.  Sim, Liandro. O homem do cartório não queria escrever com i mas assim que Sara queria e assim foi. Melissa, de uma inteligência ímpar, foi logo dizendo que o nome estava errado. Deveria ser Leandro e que iriam debochar dele na escola. Sara deu de ombros. Ela é  branca e seu  filho também mas sua situação de ignorância e pobreza garantia-lhe o preconceito de todos ou quase todos. Melissa, apesar de implicar com o i de Liandro acolheu-o com muito carinho. Quando disse que foi maldosa, ao conhecê-lo,  foi pela maneira quase raivosa com que sinalizou o erro na grafia do nome. Era uma criança muito repreendida e tornou-se intolerante com tudo e com todos. Quatro anos e muita responsabilidade em acertar sempre. Pais ausentes deixavam com Sara quase tudo da casa e da filha mas exigiam que Melissa fosse a melhor em tudo todo tempo. Toleraram Liandro porque Sara tinha uma influência muito positiva sobre a filha. Mas Liandro cresceu sob o domínio de Melissa. Estudante determinado, caráter moldado pelo reto pensar e reto agir. Ela aos 21 engravidou dele que tinha 17. Abortar, não abortar, desesperos, dedos acusadores apontados para Sara e estava formado o conflito. Por pouco tempo. Melissa decide ter o bebê. Casaram-se quando Liandro Junior tinha 4 anos e fazem hoje 50 anos de casados com três filhos. Liandro juiz e ela? Do lar! A mãe de Melissa morreu, o pai é um velho ranzinza e Sara sempre morou junto com todos cercada de amor e respeito. Morreu satisfeita pois cumpriu o objetivo traçado para esta vida: unir duas almas. Melissa, espírito de escol, não arredou do comprometimento e se fez do lar.  Sem drama, sem traumas!!!!

DOS PECADORES

Imaginava estar  ali sentado já fazia algumas horas pois o sol meio escondido atrás da ilha  a sua frente anunciava o anoitecer. Tinha o coração leve e sentimentos de gratidão o invadiam. Entre tantas manhãs comuns, e repetitivas, a de hoje continuava presente mantendo nele a sensação de alegria intraduzível, inexprimível em palavras.  Com a cabeça ainda num turbilhão de emoções pensou que não podia entrar a noite ali naquele estado  esquisito de satisfação. Já com o traseiro meio dormente levantou-se e tomou o rumo da sua paróquia. Os pés descalços cobertos pela areia úmida da maré recém baixando. Sabia tanto  de quase todos mas aquela confissão deixou-lhe atônito pela sensação nunca experimentada. Era um misto de paz, de regozijo íntimo, um #nãoseioque, pois tudo era muito novo para ele.Tinha 35 anos, 10 de apostolado, quatro naquela paróquia perdida entre montanhas e o mar. Quatrocentas e vinte e quatro pessoas, contando com ele, moravam naquela pequena vila e uma confessara naquela manhã que o amava. O confessionário bem talhado em madeira, e lustrado diariamente, nunca mais seria o mesmo reduto onde acolhia as dores d’alma, os pecados imaginados, os sonhados e trazidos para a realidade; aqueles pecados que, ao encontrar o pecador na vila ou na pequena capela, formavam uma neblina entre seu olhar e o do absolvido. Sempre pensava, nestes momentos: Que Deus realmente te perdoe! No confessionário era detentor de segredos inimagináveis.    Sabia que sua vida, a partir daquela manhã,  não mudaria em nada externamente, aparentemente, visivelmente para os outros 423 ao seu redor, mas ele tinha um mundo novo para viver por dentro.  Passou a ficar mais tempo que o necessário no cubículo, onde era o intermediário entre o pecador e Deus, a espera de outro encontro com aquela voz, que ouvira por detrás daquele denso véu impedindo o reconhecimento  do rosto.   Voz que não lhe era estranha mas que não conseguiu, nos noventa e sete anos que viveu, juntar a nenhum olhar que denunciasse o doce pecado. Ela nunca mais voltou. No seu último dia na Terra, já acamado e vencido pela inoperância a contento de alguns órgãos, e com outros tantos na iminência de parar de vez, recebeu a visita da voz que lhe sussurrou bem junto ao seu ouvido com melhor audição: Eu ainda te amo! Abriu os olhos mas a vista, desgastada pela idade e sem o recurso dos óculos, não conseguiu visualizar o olhar que tanto buscou. Fechou os olhos e num esforço supremo ele formulou a pergunta: Como sabes que este é o lado que ouço melhor?