TRÊS VIDAS!

São exatamente 7h55min, Bento levanta-se de um salto sem despertador, por instinto. Enrola com capricho o que usa como colchão e cobertor para dormir. Lá vem Dona Maria no passo lento dos seus 60 anos. Viúva, há 15 anos conta com o auxílio de Bento para subir a porta de aço da casa lotérica que herdou do marido. Com um bom dia de um  sorriso quase sem dentes de Bento, Maria lhe entrega as chaves e ele prontamente faz sua tarefa. Desde os 15 anos morando na rua depois de ser apontado, tachado, acusado de louco em sua cidade natal, por ver espíritos, falar com espíritos, saber de coisas sobre algumas pessoas que, ingenuamente, falava para elas com o objetivo de prevenir, alertar, ajudar. Era o que pensava ser certo. Agora aos trinta anos “mora” pelas ruas de Porto Alegre. Sem drogas, quase sem dentes mas com os olhos azuis mais lindos que se possa imaginar, herdados da mãe. Uma alemã amorosa mas completamente ignorante das coisas do espírito, sobre mediunidade ostensiva, causa da suposta “loucura” de Bento. Abrem a loja, ele espera Maria lhe alcançar o café com leite e o bolo feito com carinho especialmente para ele. Começam a chegar os funcionários  e Bento se recolhe para a lateral na frente da loja, sentando-se sobre o rolo com seus pertences. É razoavelmente lúcido e faz uma espécie de segurança para a lotérica. Pela capacidade de perceber intenções já evitou mais de 20 assaltos à loja. Corre o pretendente ao assalto apenas se levantando  e indo na direção dele com seu metro e noventa de altura, também herança da mãe. Não é mais sujo porque Dona Maria exige um banho, pelo menos semanal, foi o que conseguiu negociar com Bento. E é quando troca de roupa.

Juliana acorda às 7 horas e às 7h40 sai em direção ao seu consultório no centro. Vai à pé e mesmo com o padrão de violência que a cidade apresenta, já há alguns anos, não se amedronta. Acha um absurdo não poder andar as cinco quadras que separam seu apartamento do consultório dentário. Moça do interior, estudou e formou-se em Odontologia e ficou por aqui. De segunda a sexta passa diante de Bento quando ele já está ajudando Maria a levantar a porta. Seus olhos se encontram. Algumas vezes ele lhe sorri, outras apenas olha para ela. Ela não sabe nada dele mas se penaliza do estado dos dentes. Parece que o profissional de cada área está sempre atento e focado naquilo que entende. Mas para Juliana é mais que isso. Ela não sabe explicar porque Bento lhe causa uma forte emoção. Ela pensa ser a condição de morador de rua que é a única informação que captou diante do estado escabelado, barbudo, sujo, com que ele geralmente se apresenta.  Vez ou outra percebe que tomou banho e mudou a roupa. Tem vontade de falar com a senhora que está sempre com ele mas alguma coisa a impede. Queria se oferecer para arrumar os dentes daquele homem que a emociona tanto. Quem sabe um dia!

Bento “sente” quando Juliana vai virar a esquina e encontrar seu olhar com ou sem sorriso. Sem sorriso são aqueles dias em que ele está consciente da ligação deles. Como médium tem lapsos de lembranças das vidas passadas dele e, menos frequente, de outras  pessoas também. Aquela mulher lhe causa uma profunda saudade de outra vida quando formavam um casal apaixonado na corte francesa, quando ele era um conde e ela sua adorada condessa. A dor que lhe marca a alma é por saber que ela é sua amada, e ela não reconhecê-lo faz com que não consiga sorrir. Ele sabe a causa desta encarnação tão distante da felicidade que vivenciaram naqueles tempos e se cala, sempre que tem o ímpeto de se fazer reconhecer. Ela não entenderia. Chamaria de louco! Quando o olhar vem acompanhado do sorriso é naqueles dias em que sente a atração natural de um homem por uma bela mulher, apenas. Sorri distanciado da lucidez da condição tão diferente dele, um homem de rua sem nada nem ninguém, e dela, uma mulher belíssima e de modos tão finos. Um homem sem lembranças que sorri,  sem dores na alma, sem lembrança do conde e da condessa. Mas sem ninguém, não!  Tinha Dona Maria.

Dona Maria,  sem filhos, viúva desde seus 45 anos.  Foi feliz até o dia em que o marido não acordou para seu dia a dia tão comum. Sofreu a perda do companheiro mas seguiu com a rotina de abrir a lotérica, como fazia com ele, mas agora desprovida da alegria de viver, apenas sobrepondo os dias, as semanas, os anos. Até que encontrou Bento numa manhã muito fria, enrolado em si mesmo dormindo bem no meio da porta de aço que ela tinha cada vez mais dificuldade de levantar. Abaixou-se e tocou levemente em seu ombro fazendo o rapaz acordar sobressaltado. O olhar daquele azul tão límpido fez Maria encher seus próprios olhos de lágrimas. Naquele tempo Bento não tinha paradeiro certo para dormir mas sentiu imediatamente, ao se deparar com a meiga, e triste muito triste senhora, que achara um lugar depois de quase quatro anos zanzando pelo centro de Porto Alegre. A partir daquele dia, toda manhã de segunda a sábado, Maria faz um bolo, um café com leite e leva para Bento. Ele a ajuda a abrir a loja e cuida para que trabalhassem seguros. Mas isso era antes… Ela não entendia muito bem as coisas que ele lhe dizia, na maioria das vezes. Doutras ficava muito feliz com ele. Principalmente quando  lhe falava com as palavras e trejeitos do seu amado marido. Foi a partir deste momento que começou a ler, estudar mesmo, sobre a vida e a vida depois da vida. Até que começou a entender que Bento servia de intermediário para que o marido se comunicasse com ela. Aprendeu também que devia se despedir do amado companheiro e lhe indicar que seguisse seu caminho, que entendesse que estava em outro plano, fora da matéria. Foi o que um dia fez. E nunca mais, nem ela nem Juliana, viram Bento. Tinha cumprido seu propósito. Desencarnou três dias depois, atropelado não muito longe dali,  e foi feliz planejar a próxima vida, livre para esperar por Juliana. Seu eterno amor!

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NÃO CONCLUA TÃO RÁPIDO!

Cheguei na praça de alimentação do shopping bem mais cedo que de costume. Fiz meu pedido e com minha plaquinha numerada em mãos me dirigi a uma mesa livre que, como era bem antes da hora fatal para o almoço, foi fácil encontrar. Sentei-me em frente a uma mesa ocupada por mãe e filha, supus, uma vez que a acompanhante da menina estava de costas para mim. A menina, quase uma mocinha, devia estar perto dos 12 anos e acima do peso. Nossos olhos se encontraram, ela baixou os dela e continuou a comer. Fiquei observando-a a comer e, nossa, a mocinha não tinha a menor elegância no uso do talher. Segurava o garfo como uma pá que enterrava no monte formado pela refeição dela. Nos intervalos me enviava um sorriso e eu esboçava um de volta pensando: Porque a mãe não a ensinou  manusear o talher? Coisa tão simples, ainda mais para a idade da mocinha, quase debutante. Enfim, a coisa foi se repetindo, ela cravava o garfo na comida e enfiava, literalmente, o bocado na boca. Ao finalizar a mastigação e engolir, sorria para mim. Um sorriso completo onde os olhinhos participavam e os ombros chegavam a encostar nas orelhas, tamanha satisfação dela.  Era um sorriso lindo e eu não conseguia desviar meu olhar nem conter meus pensamentos de como usar um talher adequadamente. Por fim meu prato chegou. Quando ia começar a comer e, pela graça de todos os santos, me distrair da menina, elas se levantaram e eu tive um choque. A criança sofria de uma má formação nos pés, pernas, braços e mãos que faziam-na balançar o corpo todo tornando uma função tão simples, como andar, numa bizarra e complicada atividade. Para meu total destrambelhamento ela se aproximou e com o mesmo encantador sorriso, me disse: “Sabe, o senhor se parece muito, mas muito mesmo, com meu avô. Ele morreu quando eu tinha 7 anos. Hoje eu tenho 13. Ele que  me ensinou a comer assim direitinho, acertando a boca para não derramar a comida. Especialmente hoje fiz o meu melhor pois percebi que o senhor me admirava e fiquei toda orgulhosa. O senhor  parecia  meu avô feliz por me ver tão bem.” Levantei-me trêmulo, apesar de só ter 65 anos, ofereci meu melhor sorriso e me dirigi à mãe, que tranquilamente aguardava o desfecho da situação, e pedi licença para abraçar a menina. Ela assentiu e logo me vi enlaçado pelo abraço mais generoso que já havia recebido. Envergonhado pelos pensamentos que me ocorreram no inicio deste encontro, me dirigi à menina e disse: “Podes me perdoar?”. Ela sorriu e respondeu: “Sempre que estou sentada ninguém nota minhas dificuldades. Mas não posso passar a vida sentada, né? Tenho uma vida para viver.” E se foi. Ela tranquila com seus desafios e eu com muito para pensar sobre mim mesmo!

GIN TÔNICA

Ela tem, invariavelmente, um leve hálito de Gin. Isso não surpreende Lenim  que a  conheceu num agradável piquenique, num final de tarde a espera do por do sol, em meio às árvores do Parque Marinha. Todo Portalegrense conhece.  O piquenique organizado por amigos em comum , e é bom que se diga, amigos casamenteiros. Naquele dia era compreensível o hálito adocicado deste destilado à base de cereais, pois era servido em honestas xícaras de chá, de várias garrafas térmicas, uma preparação em equilíbrio perfeito de Gin  e tônica. Quem passava pelo divertido grupo pensava que se deliciavam com um saboroso chá. Lenim achou exótico mas como já tinha sido servido com uma harmonizada mistura de Rum e  café, num evento semelhante num frio de 6 graus ao relento, não se escandalizou. Ele viúvo e sem filhos, já passado dos 40 anos,  era alvo dos amigos todos emparceirados, e adeptos de que ninguém deve viver só, que buscavam achar um companheiro(a) para ele e Tianna,  e  neste dia fazer deles um par.  Buscavam “juntar” os dois. Tianna separada, dolorosamente por ter  sido traída, mas entendendo que nem todos os homens são iguais. Mulher inteligente. Ficou receptiva ao convite do encontro às cegas a partir da descrição, altamente qualificada e detalhada, da sua melhor amiga Giovanna. Gostou do Lenim. Levemente grisalho, caseiro e ávido leitor. Segundo Giovanna, alto suficiente para o metro e setenta de Tianna (que ainda gostava de sapatos salto 6, no mínimo)  nem gordo nem magro e nada pavão, ou seja, vamos no vulgar, não se”achava”. Em suma, um homem interessante que estava sozinho por opção, não que faltassem interessadas. Como diz uma música da Marisa Monte,  AINDA BEM, “…porque ninguém dava nada por mim, quem dava eu não estava a fim.. “. Tianna, uma bela e meiga criatura, merecia momentos  felizes, imprimir melhores lembranças. Deu certo. Vivem juntos há três anos. Ele sabe que o beijo dela terá , quase sempre,  um gostinho de Gim. Não, não é alcoolista, apenas aprecia a bebida. Não tem hora, não tem dia. Não precisa ser sexta-feira, nem dia de festa. Permite-se o deleite quando bem entende. Ele adora o gosto discreto e receptivo. Ele aprendeu a beber de uma garrafa térmica um drinque, originalmente servido em copo adequado (que ele sempre considerou altamente importante, adequar o tipo de bebida ao seu devido copo), em singelas xícaras de chá. Ficou determinado que assim seria. Novatos no grupo não entendem, quando recepcionados na casa de Tianna e Lenim, porque o famoso drinque é servido desta inusitada forma.

 

DE VIRADA

O pior momento foi quando descobriu que ela tinha contratado todo o aparato  para o funeral. Não o surpreendeu mas foi a  gota d’água. Playlist a seu gosto, cerimonial, flores, e até mesmo quem iria fazer o discurso de despedida. Só não teve a audácia de escrevê-lo. Seria cremado, claro. Há muito Júlio notou a indiferença dela ao seu sofrimento. Dores por todo o corpo, dificuldades e limitações se avolumando. Na última consulta, em que ela não o acompanhou, o médico deu o tempo fatal. Dois meses, quando muito. Ele estava mais magro mas no mais ninguém notava seu estado de fragilidade. Casados, sem filhos, num relacionamento normal. Dias bons, muitos sem nada, e a maioria de reclamações de toda ordem, da parte dela. Belíssima, ele sempre apaixonado. Quando Júlio descobriu a doença imaginou que teria alguma solidariedade. Mas não. Não o ajudou em nada. Já aposentados viajavam com frequência. Agora na impossibilidade dele  nada mudou para ela. Continuava com o planejado mudando apenas a parceria. Chamava uma amiga ou outra. Tinha sido um casamento de conveniência para ela, mas Júlio tinha se apaixonado no primeiro olhar. Ela percebeu o encantamento dele e planejou o enlace. Vinte e cinco anos juntos. Então! Ao receber o telefonema, na linha do número fixo da casa, soube dos detalhes da contratação da cerimônia do funeral. Seu funeral. Pobre menina que lhe passou tudo com minúcias não desconfiando que falava com o provável defunto. A ligação era para confirmar alguns detalhes. Assim ela descreveu como seria sua despedida. Júlio ouviu tudo e finalizou a conversa pedindo que nada fosse comentado com Dona Sara, a contratante, pois ela, a atendente, teria sérios problemas se o fizesse. Ele foi bem convincente como brilhante advogado que sempre foi. Recostou-se na cadeira de couro do escritório/biblioteca e visitou mentalmente os anos passados com Sara. Percebeu o bobo que sempre fora. Sorriu e pensou na conhecida frase: Deus não joga mas fiscaliza. Respirou fundo e ligou para seu médico. Iria submeter-se ao medicamento experimental sugerido na última consulta. Enfim, tranquilo e otimista, subiu e foi tomar seu banho. Duas horas depois estava defronte a mesma mocinha com quem falara à tarde. Queria confirmar o serviço contratado, que descobriu estar totalmente pago por Sara. Não queria nenhuma mudança. Apenas o defunto seria outro. Sara teve um infarto fulminante e teria tudo do melhor na sua despedida. Que ironia, tudo escolhido pela própria. Júlio a achou, ainda, bem bonita em seu belíssimo caixão. Hoje vive com Célia, viajando para os lugares também organizados por Sara. Tudo muito bem organizado. Tudo de muito bom gosto. E Célia? O amava.  

VOANDO POR AÍ

Laura, 45 anos, diretora de uma grande Empresa, voa com frequência em função da exigência da profissão. E nunca gostou de conversas bobas tipo como seria o voo, sobre o tempo, sobre quão chatas eram as esperas. Enfim… Conversas ocas. Então desenvolveu uma metodologia de espera para não ser incomodada. Fazia para se distrair, não tinha outras intenções. Sempre de olhos baixos lendo alguma coisa no seu iPad. Às vezes, poucas vezes,  apenas fingia ler. Pois bem, graças a este costume começava a conhecer as pessoas pelos sapatos, quando ficava entediada de olhar para a tela onde lia ou fingia ler. É, pelo sapatos. Ia levantando os olhos a partir dos pés das pessoas. Desenvolveu esta arte (Bem difícil.  Experimente!) de ir tipo escaneando, lentamente, sem saltar as partes ou ir de supetão dando de cara com a pessoa. E gostava de fazer elucubrações, a partir deste ponto de vista, (dos pés) e tirando conclusões ao percorrer cada pedaço (da pessoa).  Ria sozinha das suas conclusões. E foi sem poder conter o riso que conheceu Tiron.  Sapa tênis, tamanho 42/44, homem alto, concluiu. Limpos. Caprichoso. Calça jeans quase padrão, logo não era um jovem. Garoto. Guri. Fedelho. Classificava assim todos com menos 40 anos. Coxas firmes. Uia… Óóóóó´, lamentou. Estava com uma revista no colo! Camiseta polo de cor única. Ela odiava as com listras. Mangas longas, que pena… não poderia apreciar os pelos dos braços. Mãos grandes, uma sobre a revista, outra segurando uma pequena valise de mão que estava apoiada na cadeira ao lado. Valise de couro marrom. Usada. Não velha. Voltando para as mãos. Nada de anel ou aliança. Homens usando anéis lhe causava asco. Aliança indicava “fique longe”, se bem que os “com” eram tão ou mais disponível, não que ela buscasse qualquer deles. Laura já tinha tido vários relacionamentos. Tipo rápido, médio  e 6 anos, que foi seu mais longo. Todos com términos  bem definidos. Com choro, sem choro, com raiva, decepção, enfim… Sofrência atual? Zerada. Mas vamos a descoberta de Tiron. Onde estava? Nas coxas…não.! Já passei das coxas. Mas estava nas mãos que dizem muito de um homem. Podia vê-las bem uma vez que os assentos da sala de embarque, daquele aeroporto, eram bem próximas.  Metro e meio de distância entre o frente a frente dos sentados. Unhas limpas e bem cortadas. A  avaliação ia tornando o homem do tipo de bom padrão para Laura. Ombros largos. Já havia passado pelo abdômen e gostado. Tinha uma protuberância que considerava  razoável. Homem muito sarado nessa idade lhe parecia um bobão querendo ter 18 anos. Bem, isso é coisa de cabeça de Laura. Chegou ao colarinho que tinha os dois botões abertos mostrando um pescoço sensual, sem correntinhas, o que lhe deu grande alívio. Homens de correntinha lhe pareciam afeminados, com cordões de grossos elos lhe causavam uma imediata paralisação no escaneamento e procurava outros pés.  Não era o caso. Uns pelos discretos se mostravam tímidos no pouco que via do peito.  Chegou na linha da boca e encontrou duas carreiras de lindos dentes. Sorriu para aquela boca, passou pelo nariz rapidamente e encontrou os olhos que sorriam junto com a boca e faziam ruguinhas, nos cantos, de enlouquecer qualquer uma. Os olhos dele se estreitaram e fizeram aquela expressão de quem estava sabendo o que Laura esteve fazendo, e provavelmente pensando, ao percorrer sua pessoa naqueles minutos. Ele havia acompanhado cada expressão dela e fez enorme esforço para não mover um músculo, com receio de espantá-la, ao longo do que ele também associou a um escaneamento. Mesmo quando ela chegou na altura da revista e fez um muxoxo, claramente decepcionada. Ali foi um grande teste pois pensou em pegar a revista rapidamente. Mas venceu o desafio. Passado este momento ele notou que ela começava a esboçar um sorriso que ele achou lindo, doce e sedutor. Aliás ele estava se sentindo como se ela o despisse, durante o percurso do olhar  aí a razão, o anseio, de pegar a revista pois pensou que ela poderia ficar instável. A revista.  Agradeceu a firmeza do jeans. Percebeu que ela o  avaliava sem um interesse em particular, pareceu-lhe mesmo um hobby, peculiar, mas um hobby. Só que quando seus olhos se encontraram estavam ambos sorrindo. Voaram  juntos lado a lado graças a um pequeno troca troca de poltronas que ele gentilmente argumentava como ser necessário para viajar junto à esposa, o que causava um leve estranhamento, provocador de batimentos cardíacos descompensados, em Laura. Depois dessa fizeram muitas viagens juntos e ela ensinou o jogo a Tiron e começaram a apostar quem conseguia fazer a melhor avaliação. As conclusões eram discutidas e as que podiam ser corroboradas eram contabilizadas como pontos. Quem perdia ficava à mercê do que o outro lhe impingiria, à título de castigo. A falta de habilidade ou ansiedade de ir dos pés aos peitos de alguma mulher, ou se deter por tempo considerado inadequado, por Laura, nas coxas da dita cuja desencadeava uma pena pesada. Tiron também considerava falta grave quando Laura se encantava com aquele espaço entre as coxas e o abdômen, sem revistas que o preservasse.  E quem perdia tinha que pagar a “prenda”,  às vezes durante o voo… Uia!!!!

MAS BAH, QUE LOUCA!

Quando desceu do ônibus ainda estava estonteada pela noite mal dormida, pelo plantão acumulado no hospital, e as quatro horas da viagem de ônibus. Não tinha carro e nunca gostou de dirigir mas tinha carteira. Com a roupa amarfanhada e o cabelo em total caos, apesar de cortados bem curtos. O que estava prestes a fazer era uma insanidade mas a personalidade destemida,  teimosa para alguns, julgava ser o melhor. A rodoviária àquela hora, quase noite,  cheirava a pastel frito e uma mistura de  “fedores” nauseantes. Emília forçou uma  respiração curtinha para não inspirar o mau cheiro mas não adiantou, quase vomitou.  Ia abrir o aplicativo para chamar um carro mas se deparou com aquele mar cor de laranja dos táxis de Porto Alegre. Não tinha fila e estava com pressa. Embarcou num carro e já que não tinha bagagem, só uma mochila, o motorista nem se moveu. Indicou o endereço no bairro Guarujá. Era longe e teria um bom tempo para pensar. Começou a passar um filme no pensamento.  Conhecia a cidade muito bem pois era dali e vivera ali até passar no vestibular de medicina na UPF (Universidade Passo Fundo) aos 19 anos. Agora formada e trabalhando num hospital da cidade nem pensava em voltar para o furdunço da capital. Sem pai nem mãe (tinham morrido num acidente um ano antes dela se formar), apenas um irmão que morava em São Paulo, não tinha nenhum vínculo com a cidade nem tinha qualquer sentimento de saudade. Criara raízes e fizera amigos na faculdade e no trabalho. Era feliz. Era feliz?! Sim, era feliz. E estava no táxi indo na direção de confirmar isso. O carro parou em frente a uma casa baixa no fundo de um imenso gramado. O lugar era calmo e não havia ninguém à vista. Olhou o relógio, vinte horas. Normal a quietude. A casa era afastada e aquele recanto do bairro especialmente sossegado. Pagou o motorista, desceu e se aproximou do portão duplo de ferro, mais alto que ela quase um metro, calculou. Procurou uma campainha mas não levou um minuto e Ramiro surgiu na porta da casa, vestindo um terno preto alinhado e camisa, sem gravata, azul. Com a cuia de chimarrão na mão, claro! Ele acionou algum controle que abriu o portão. Emília entrou e percorreu a distância até a casa pelo caminho marcado pelos pneus do carro. Para se acalmar contava os passos com o olhar fixo em Ramiro, tentando decifrar os pensamentos dele. Quarenta e oito passos e estavam frente a frente. Ele sorriu, largou a cuia no chão e abriu os braços enlaçando ela e a mochila. Logo surgiram, de dentro da casa, Manuela e Murilo de 9 e 7 anos, respectivamente. Fizeram a maior gritaria abalroando o casal numa euforia de abraços, beijos, pulinhos e gritinhos de alegria. A chegada dela era a confirmação de que o casamento ia sair mesmo! E o melhor, iriam morar em Passo Fundo! Cidade que adoravam, onde moravam os avós paternos e de onde o pai, viúvo e também médico, havia recebido o convite para comandar uma equipe de residentes, no mesmo hospital onde trabalhava Emília. Ramiro havia condicionado a mudança a aceitação de Emília  casar com ele. Ali estava a resposta dela. No olhar, no abraço, no cabelo em total desalinho denotando que a decisão tinha sido espontânea pois, certamente,  estava vindo direto de um exaustivo plantão.  Foi neste momento que apareceram os gêmeos de 2 aninhos, no colo da velha babá…Então?  Quem aí não a chamaria de insana…Os bracinhos dos gêmeos querendo ir para o colo dela dissiparam qualquer incerteza. Era muito feliz!

UMA CHAVE

Tomou certa distância e se trombou com o ombro de encontro à porta na tentativa de arrombá-la. Nos filmes sempre funcionava mas Brenda logo pensou no hematoma que surgiria, no seu braço, diante da porta intacta sob seu frágil impacto. E a maldita chave em algum lugar, perdida dentro de casa, certamente rindo e pensando na estupidez de quem guarda algo sem saber onde procurar depois. Se chave pensasse e pudesse rir, claro! Brenda, escorregando as costas pela porta, senta-se no chão desanimada. Imaginando se poderia suportar entrar naquele cômodo que chamavam de “cantinho”. Chamavam… Um embrulho no estômago trouxe um amargor à garganta e ela se negou a explodir em choro. Já tinha esgotado seu manancial de lágrimas.  Há quase dois meses Martin morreu deixando para trás uma casa construída nos pequenos detalhes, ao gosto dos dois, e uma mulher agora esgotada de recursos para superar a saudade. De repente uma rajada de vento entrou, certamente por alguma fresta da janela do quarto, desde então fechada, e passou por baixo da porta trazendo para os sentidos de Brenda o perfume do tabaco usado por Martin. O perfume que exalava do cachimbo quando ele fumava e seu olhar meio de lado se fizeram presentes na mente, no coração e no corpo todo, reavivando em Brenda lembranças lindas mas tão, tão dolorosas agora. Queria entrar e se aconchegar no sofá de veludo cinza, olhar as cortinas esvoaçando pela brisa do entardecer nas montanhas. Queria entrar e mexer nos papéis amontoados sobre a mesa usada como amparo para tudo;  livros, xícaras de chá, livros com a leitura em andamento, contas a pagar e o notebook dos dois, lado a lado. Estava tudo lá como anoiteceu e como amanheceu no dia em que Martin infartou aos 43 anos.  Ao chegar em casa, retornando do hospital depois de todo o esforço inútil dos médicos para retornar Martin à vida, Brenda abriu a porta do “cantinho”, o suficiente para pegar a chave, fechando-a imediatamente chaveando-a e… Sim, agora lembrava! Colocou a chave no bolso do jeans que vestia. Aquele jeans, e a camiseta, que vestia naquele dia foram esquecidas em algum lugar e depois acomodados nas caixas de doação, das roupas de Martin, e enviadas duas semanas depois para o centro espírita que  frequentavam. Quem teria recebido a calça, quem teria pegado a chave e se perguntado de onde era?!

A chave

A triagem do roupeirinho, como era chamado o local onde eram deixadas as doações de roupas, tinha um sistema em que as peças eram recebidas, revistadas e enviadas para uma voluntária fazer a lavagem. Se preciso, feitos os reparos. Ao receber as cinco caixas naquela tarde, Paola ficou impressionada  com as peças acomodadas com um carinho e um capricho nunca visto por ela. Abriu as quatro primeiras. Todas com roupas masculinas  e, pela numeração, de um homem magro e alto. Na quinta caixa se deparou com uma camiseta e uma calça jeans, que tinham sido tiradas do corpo,  jogadas sobre as roupas masculinas organizadas no mesmo padrão das outras caixas.  Paola deduziu que tinham sido tiradas do corpo e atiradas na caixa já que a camiseta estava do avesso e o jeans com uma perna meio pra dentro meio pra fora. Estranhou por serem as únicas peças femininas e em desordem!!!! Ao pegar a calça e fazer a revisão encontrou uma chave. O perfume de fumo para cachimbo fez com que instintivamente levasse a chave ao nariz. Sentiu o aroma delicioso e um arrepio percorreu seu corpo. Levou a chave até a caixa onde guardavam os objetos encontrados e a colocou lá. A chave, impregnada das emoções envolvidas pela porta do ”cantinho”, resignada com seu destino,  acomodou-se entre os tantos outros objetos e pensou: Um dia ela me encontra! Isso se chave pudesse se resignar ou pensar!   Claro!