SE FOR PRA SER!

Meu filho me visita e…  EU ESTOU AQUI, olhando nos seus olhos cor de mel, incrustados neste rosto meigo que transparece o homem voltado para  o bem. Mas hoje algo mais transparece dele. Com minha percepção aguçada pelos muitos passos que já caminhei percebo algo diferente e, muito naturalmente, meu olhar desvia para a menina/mulher ao seu lado e capto nos seus olhos amendoados que eles têm um novo amor. Meu coração sobressalta,  eu me desdobro e mergulho mentalmente, inconsciente, num mundo que desconheço e de repente estou enlaçada, espiritualmente, com alguém que me fará transpor todas as barreiras do bom senso… Vou ser avó!!!! Será???? Um dia??? 

MÃE

EU ESTOU AQUI…

Como em muitas outras vezes conversando com minha mãe.  Hoje desperta para esta presença em minha vida. Presença que sempre me fortaleceu ao seu modo, me amou ao seu modo, me protegeu ao seu modo, me ensinou, me norteou, me levantou, me impulsionou e me apoiou sempre apesar de eu não corresponder à altura desta grande mulher que hoje reconheço uma suave fortaleza, entendendo que este hoje já faz tempo… Muito tempo.

VOANDO

EU ESTOU AQUI!  Pensamos.  Às vezes até mesmo verbalizamos…

…quando na iminência  de voar pela primeira vez! Encantados com todos os procedimentos para tal locomoção, antigamente elitizada. Tudo é novo. Interessante para nós, “marinheiros de primeira viagem” é que, para os que estão a nossa volta, tudo é tão indiferente. O check in, a chamada pelo sistema de som informando o voo que chega,  o voo que sai. Sistema que chama o nome por extenso do  atrasado, que corre até o portão de embarque, expondo-se aos olhares dos que esperam serenamente seu horário. Sempre tem um. Atrasado. Meu pai sempre diz: – Tá com pressa, sai mais cedo. E quando este primeiro voo é internacional, então! Ah, passar pela alfândega… Sem nada dever, claro, até porque os neófitos em voar não arriscam serem barrados. Decolar é uma delícia, para alguns, sentar à janela é preferência, para outros é muito “novidade” ao mesmo tempo!  Aliás, deveriam ter prioridade nestes assentos os que voam pela primeira vez… A aceleração, o grudar na poltrona, por conta da velocidade exigida para alçar voo.  Ultrapassar as nuvens? Quase uma aventura estar acima delas, um maravilhoso mundo novo de algodão. E em dias de “céu de brigadeiro”, a angústia de querer identificar que cidade, que campos, que estradas são aquelas vistas tão pequeninas lá do alto. Nós aqui do Sul queremos identificar a BR 290, Freeway para nós, autoestrada que liga Porto Alegre ao litoral gaúcho e emenda na BR 101, ou avistar do alto nossas belíssimas cidades na Serra Gramado e Canela.   O vai e vem dos comissários de bordo, a curiosidade de ver a cabine de onde sai aquela voz que nos informa o tempo e condições do voo. Aterrissar… Aiiiii. A desaceleração nas alturas, a aproximação do solo, o toque na pista tão suave quanto possível diante daquele monstruoso peso tocando o solo. Sons que vamos aprendendo a reconhecer. E a freada?! Assustadora para a primeira aterrissagem de qualquer um. Ou tememos em todas as demais? Parece que o freio não vai dar conta de segurar o monstro. E a pista, naquele momento, sempre nos parece insuficiente. Pois foi vivendo tudo isso que Ciro e Lina chegaram a Paris!!! (Ler em Contos Sem Nó – SURPRESA)

PERDAS E GANHOS

Deitada Júlia  sentia a respiração daquele que um dia se foi e agora estava ali dormindo serenamente ao seu lado. Júlia, mais consciente de que nada é para sempre. Quando se deu a ausência também aflorou o pensamento/sentimento – Eu estou aqui… Naqueles dias aquela cama  parecia vasta demais para uma Júlia que olhava o mesmo teto e as mesmas cortinas, mas com aquela ausência ali, tão presente! Havia sim o sentimento de liberdade, apesar de dolorida.  E a expressão: – Eu estou aqui, ganhando a conotação de libertação.

Sim, libertação de alguém que a sufocava (que ela amava tanto) e pensava ser impossível viver sem sua companhia.  Engano inerente ao viver,  pensa ela hoje.  Quando sentia a ausência nos dias mais doloridos, vinha esta ideia direcionada a ele: Tome distância de mim o suficiente para que eu não tenha fôlego de te alcançar! Era quase como uma súplica.

Hoje, na madureza dos 40 anos, não se sente tão jungida a pessoa, prefere considerar que outros caminhos existem, outras pessoas podem querer estar ao seu lado sentindo, pensando: Eu estou aqui junto dessa mulher especial…

O tempo é generoso professor!

EU ESTOU AQUI VI

…na plateia entre 50 ou 70 pessoas ouvindo meu filho , à época com 21 anos, fazer sua primeira palestra. Dicção clara numa fala nem rápida demais, que não se possa acompanhar o raciocínio e a concatenação de ideias, nem lenta que nos cause a angústia da espera pela próxima frase. Voz firme e forte, daquelas que imprimem confiança no que se diz. Capacidade incomum de se movimentar no palco, com elegância, sem chamar demais a atenção para sua figura (lindo ele), gesticulando e expressando no rosto os aspectos mais contundentes do assunto.   

Eu? Tenho um sorriso bobo estampado na cara. Difícil disfarçar a satisfação.

 

…de novo na platéia, agora entre muitas mães.  As lágrimas pipocam sem o meu controle como se quisessem, todas ao mesmo tempo, vivenciar o momento do filho formando. Quando é chamado o nome dele algo dentro de mim implode numa emoção nunca antes vivida. Desta vez eu sabia  que este momento chegaria e eu diria: EU ESTOU AQUI!

Vivi esta emoção duas vezes.

EU ESTOU AQUI V

…Numa sala, grande, muito iluminada, com precisão de movimentos tudo acontece à minha volta. Eu mais consciente da presença dele. Sim, eu sei que é um menino! Não penso, só sinto, com a minha percepção altamente ampliada, percebo que a junção física se esvai para dar lugar ao contato visual. Seus olhinhos nos meus me remetem ao melhor de mim, me fazem crer que sou tudo pra ele e ele sempre será tudo para mim. E ao tê-lo em meus braços, fecho os olhos, respiro profundamente e penso: EU ESTOU AQUI, ELE ESTÁ AQUI… Sem palavras! Meus braços, que envolvem esse corpinho, é uma redoma de emoção impenetrável, incompreensível para todos a minha volta. E assim será para sempre quando o abraçar.
Igual para os dois filhos que tenho!

EU ESTOU AQUI IV

…Numa sala pequena, uma ansiedade brotada da inexperiência e do medo de tudo ser diferente pra mim do que é para todas. O gelado do gel nos assusta, pois reagimos juntos ao que nos afeta, mas logo nos emocionamos e só eu vejo, numa pequena telinha, uma imagem pulsando, quase duplicando o ser vivo dentro de mim. E de repente somos só nós dois, desaparecem as paredes, o médico e ficamos com nossos batimentos “de coração para coração” acelerados pela emoção deste contato que me mostra apenas os teus contornos. Tenho um filho dentro de mim. E sinto que tudo pode e vai mudar no meu pensar, no meu sentir.
Desde que soube que seria mãe minha mente já não comporta apenas eu. Minha mente está plena da presença dele.
E tive estas impressões por duas vezes!