MAS BAH, QUE LOUCA!

Quando desceu do ônibus ainda estava estonteada pela noite mal dormida, pelo plantão acumulado no hospital, e as quatro horas da viagem de ônibus. Não tinha carro e nunca gostou de dirigir mas tinha carteira. Com a roupa amarfanhada e o cabelo em total caos, apesar de cortados bem curtos. O que estava prestes a fazer era uma insanidade mas a personalidade destemida,  teimosa para alguns, julgava ser o melhor. A rodoviária àquela hora, quase noite,  cheirava a pastel frito e uma mistura de  “fedores” nauseantes. Emília forçou uma  respiração curtinha para não inspirar o mau cheiro mas não adiantou, quase vomitou.  Ia abrir o aplicativo para chamar um carro mas se deparou com aquele mar cor de laranja dos táxis de Porto Alegre. Não tinha fila e estava com pressa. Embarcou num carro e já que não tinha bagagem, só uma mochila, o motorista nem se moveu. Indicou o endereço no bairro Guarujá. Era longe e teria um bom tempo para pensar. Começou a passar um filme no pensamento.  Conhecia a cidade muito bem pois era dali e vivera ali até passar no vestibular de medicina na UPF (Universidade Passo Fundo) aos 19 anos. Agora formada e trabalhando num hospital da cidade nem pensava em voltar para o furdunço da capital. Sem pai nem mãe (tinham morrido num acidente um ano antes dela se formar), apenas um irmão que morava em São Paulo, não tinha nenhum vínculo com a cidade nem tinha qualquer sentimento de saudade. Criara raízes e fizera amigos na faculdade e no trabalho. Era feliz. Era feliz?! Sim, era feliz. E estava no táxi indo na direção de confirmar isso. O carro parou em frente a uma casa baixa no fundo de um imenso gramado. O lugar era calmo e não havia ninguém à vista. Olhou o relógio, vinte horas. Normal a quietude. A casa era afastada e aquele recanto do bairro especialmente sossegado. Pagou o motorista, desceu e se aproximou do portão duplo de ferro, mais alto que ela quase um metro, calculou. Procurou uma campainha mas não levou um minuto e Ramiro surgiu na porta da casa, vestindo um terno preto alinhado e camisa, sem gravata, azul. Com a cuia de chimarrão na mão, claro! Ele acionou algum controle que abriu o portão. Emília entrou e percorreu a distância até a casa pelo caminho marcado pelos pneus do carro. Para se acalmar contava os passos com o olhar fixo em Ramiro, tentando decifrar os pensamentos dele. Quarenta e oito passos e estavam frente a frente. Ele sorriu, largou a cuia no chão e abriu os braços enlaçando ela e a mochila. Logo surgiram, de dentro da casa, Manuela e Murilo de 9 e 7 anos, respectivamente. Fizeram a maior gritaria abalroando o casal numa euforia de abraços, beijos, pulinhos e gritinhos de alegria. A chegada dela era a confirmação de que o casamento ia sair mesmo! E o melhor, iriam morar em Passo Fundo! Cidade que adoravam, onde moravam os avós paternos e de onde o pai, viúvo e também médico, havia recebido o convite para comandar uma equipe de residentes, no mesmo hospital onde trabalhava Emília. Ramiro havia condicionado a mudança a aceitação de Emília  casar com ele. Ali estava a resposta dela. No olhar, no abraço, no cabelo em total desalinho denotando que a decisão tinha sido espontânea pois, certamente,  estava vindo direto de um exaustivo plantão.  Foi neste momento que apareceram os gêmeos de 2 aninhos, no colo da velha babá…Então?  Quem aí não a chamaria de insana…Os bracinhos dos gêmeos querendo ir para o colo dela dissiparam qualquer incerteza. Era muito feliz!

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UMA CHAVE

Tomou certa distância e se trombou com o ombro de encontro à porta na tentativa de arrombá-la. Nos filmes sempre funcionava mas Brenda logo pensou no hematoma que surgiria, no seu braço, diante da porta intacta sob seu frágil impacto. E a maldita chave em algum lugar, perdida dentro de casa, certamente rindo e pensando na estupidez de quem guarda algo sem saber onde procurar depois. Se chave pensasse e pudesse rir, claro! Brenda, escorregando as costas pela porta, senta-se no chão desanimada. Imaginando se poderia suportar entrar naquele cômodo que chamavam de “cantinho”. Chamavam… Um embrulho no estômago trouxe um amargor à garganta e ela se negou a explodir em choro. Já tinha esgotado seu manancial de lágrimas.  Há quase dois meses Martin morreu deixando para trás uma casa construída nos pequenos detalhes, ao gosto dos dois, e uma mulher agora esgotada de recursos para superar a saudade. De repente uma rajada de vento entrou, certamente por alguma fresta da janela do quarto, desde então fechada, e passou por baixo da porta trazendo para os sentidos de Brenda o perfume do tabaco usado por Martin. O perfume que exalava do cachimbo quando ele fumava e seu olhar meio de lado se fizeram presentes na mente, no coração e no corpo todo, reavivando em Brenda lembranças lindas mas tão, tão dolorosas agora. Queria entrar e se aconchegar no sofá de veludo cinza, olhar as cortinas esvoaçando pela brisa do entardecer nas montanhas. Queria entrar e mexer nos papéis amontoados sobre a mesa usada como amparo para tudo;  livros, xícaras de chá, livros com a leitura em andamento, contas a pagar e o notebook dos dois, lado a lado. Estava tudo lá como anoiteceu e como amanheceu no dia em que Martin infartou aos 43 anos.  Ao chegar em casa, retornando do hospital depois de todo o esforço inútil dos médicos para retornar Martin à vida, Brenda abriu a porta do “cantinho”, o suficiente para pegar a chave, fechando-a imediatamente chaveando-a e… Sim, agora lembrava! Colocou a chave no bolso do jeans que vestia. Aquele jeans, e a camiseta, que vestia naquele dia foram esquecidas em algum lugar e depois acomodados nas caixas de doação, das roupas de Martin, e enviadas duas semanas depois para o centro espírita que  frequentavam. Quem teria recebido a calça, quem teria pegado a chave e se perguntado de onde era?!

A chave

A triagem do roupeirinho, como era chamado o local onde eram deixadas as doações de roupas, tinha um sistema em que as peças eram recebidas, revistadas e enviadas para uma voluntária fazer a lavagem. Se preciso, feitos os reparos. Ao receber as cinco caixas naquela tarde, Paola ficou impressionada  com as peças acomodadas com um carinho e um capricho nunca visto por ela. Abriu as quatro primeiras. Todas com roupas masculinas  e, pela numeração, de um homem magro e alto. Na quinta caixa se deparou com uma camiseta e uma calça jeans, que tinham sido tiradas do corpo,  jogadas sobre as roupas masculinas organizadas no mesmo padrão das outras caixas.  Paola deduziu que tinham sido tiradas do corpo e atiradas na caixa já que a camiseta estava do avesso e o jeans com uma perna meio pra dentro meio pra fora. Estranhou por serem as únicas peças femininas e em desordem!!!! Ao pegar a calça e fazer a revisão encontrou uma chave. O perfume de fumo para cachimbo fez com que instintivamente levasse a chave ao nariz. Sentiu o aroma delicioso e um arrepio percorreu seu corpo. Levou a chave até a caixa onde guardavam os objetos encontrados e a colocou lá. A chave, impregnada das emoções envolvidas pela porta do ”cantinho”, resignada com seu destino,  acomodou-se entre os tantos outros objetos e pensou: Um dia ela me encontra! Isso se chave pudesse se resignar ou pensar!   Claro!

SE FOR PRA SER!

Meu filho me visita e…  EU ESTOU AQUI, olhando nos seus olhos cor de mel, incrustados neste rosto meigo que transparece o homem voltado para  o bem. Mas hoje algo mais transparece dele. Com minha percepção aguçada pelos muitos passos que já caminhei percebo algo diferente e, muito naturalmente, meu olhar desvia para a menina/mulher ao seu lado e capto nos seus olhos amendoados que eles têm um novo amor. Meu coração sobressalta,  eu me desdobro e mergulho mentalmente, inconsciente, num mundo que desconheço e de repente estou enlaçada, espiritualmente, com alguém que me fará transpor todas as barreiras do bom senso… Vou ser avó!!!! Será???? Um dia??? 

FALTA

Disse-me  alguém mais ou menos assim: Teu trabalho só será reconhecido quando tua ausência for notada, não pelas carícias e pelos momentos de serena companhia mas pela louça suja na pia, pela roupa que não retornou limpa para o  armário, pelo café que não foi passado. Seja este trabalho teu, dele ou dela!

DESAFIOS

Contorna os obstáculos de tal forma que não voltes ao mesmo lugar e tenhas que reviver o mesmo desafio. Se o movimento de contorná-los não acrescentou conhecimento de ti mesmo, voltarás…certamente voltarás!

QUE SITUAÇÃO?!

Isso se deu  lá pelo fim da tarde, depois de um dia cheio de ir e vir mas sem que tivessem a chance de se encontrarem. E isso foi há muitos anos quando os municípios de Porto Alegre pareciam cidades do interior e todos conheciam todos.  Ela nos conta meio se rindo, meio sem graça pois tem vergonha do guri em questão até hoje. Bem servidos pelas oportunidades da vida, desde então, tinham uma caminhonete cabinada. Cansada do dia preenchido com muitas tribulações mas sempre muito disposta,(é até hoje nos seus 50 e alguns anos) esperava o marido que viria buscá-la. Na época não dirigia mas faz tempo abana as tranças conduzindo seu próprio carro. Então… O marido citado, antes de chegar no ponto combinado para pegar a recatada do lar, visualiza o tal do guri num ponto de ônibus. Este casal é e sempre foi muito generoso. Ato contínuo, ao ver o guri ali estaqueado num dia frio de julho, oferece uma carona que não é rejeitada. Facerito no mais com seus 10 ou 12 anos, informado que iriam pegar outra pessoa, se aboletou no banco traseiro sem cerimônia. Quieto entrou, quieto ficou. Eis que em mais umas cinco quadras está a esposa na espera de ir para casa. Pelo jeito já saudosa do maridão  entra apressada olha para o dito e larga essa: bah fulano,(vamos preservar os nomes), ainda não f… hoje?!? Antes que ela seguisse no assunto, que parece  render  muito até hoje, o marido olha pra ela e revira os olhinhos para o banco de trás. Numa fração de segundos ela imagina ser uma sugestão de colocarem o ato em dia mas num sobressalto, pelo arregalar dos olhos do “fulano”, olha para o banco de trás e dá de cara com o guri, tentando fazer a melhor cara de paisagem que ele conseguia, num vermelhão só. Ambos. Não sabemos da continuidade dos fatos, nem como contornaram a situação,  porque já nos doía a barriga de tanto rir enquanto ela contava, de forma entrecortada pela risada, que não pode olhar para o guri até hoje; já homem feito mas que, certamente,  não só não esqueceu o fato como desenvolveu o tema. Fico a pensar na  imaginação do fedelho no resto dos seus dias.

APRESSADA, NUNCA MAIS!

Correria, verão, encontro marcado com namorado recentemente conquistado. Isso lá pelos anos 80. Afobada, chegando sei lá de onde pois quando nos contou o fato este detalhe ficou sem a menor importância. Então, chegando e faltando 5 min para o horário combinado pensou que o cara já devia estar pertinho. De jeans (modelo anos 80, apertado até os joelhos mas não tanto como os de hoje,  boca de sino) e camiseta, pensou que  não daria tempo de um banho caprichado. Mas o calor ao longo do dia  tinha sido do tipo porto alegrense. Como era um dos primeiros encontros nada rolaria, ainda!!! Tudo passava rapidamente pelo seu pensamento transtornado pela falta de tempo. Tempo de escolher outra roupa? Nem pensar. Mas sem banho? Também, nem pensar!   Tirou o jeans apertado, a camiseta o sutiã e se enfiou numa ducha de 1 minuto, quando muito. Vestiu a calcinha limpa, tudo num frenesi,  pegou o mesmo jeans e cheirou. Estava bem a contento. Enfiou uma perna da  calça, já indo aos tropeções para o gavetão de sandálias, enfiou a outra perna e se abaixou para  escolher uma bem bonita, salto 7. Pegou  uma camiseta limpa qualquer e saiu. Como imaginou aquele que hoje é marido já esperava lá embaixo. O restaurante era bem frequentado. Ao sair do carro sentiu algo roçando quase na altura do joelho esquerdo e, com a elegância que ainda lhe é própria, inclinou-se e coçou a região pois algo pinicava ali. Num passo miudinho (ela ainda anda assim) foram conduzidos à mesa reservada. E quando ela sentou o incômodo na perna desceu um pouco. Ela sacudiu o pé e movimentou a  perna pra lá e pra cá, embaixo da mesa, na tentativa de se livrar do que, seja lá o que fosse, estava tornando a situação desagradável.  Mas nada, tinha uma coisa ali e ela começou a cismar  no que poderia ser. O namorado já estava desconfiado com os movimentos embaixo da mesa. Então ela deu-lhe um sorriso sem graça e anunciou que já voltava. Levantou-se e quando deu o primeiro passo a calcinha, com a qual passou o dia e devia ter ficado dentro da calça quando  tirou apressada para o banho rápido,  deslizou e se instalou, visível a qualquer um, entre a barra da calça e a deslumbrante sandália, que sempre chamava a atenção de todos . Atravessou o restaurante em direção ao toalete como se aquela peça, bem fora do lugar original, não estivesse se mostrando toda vermelha , cheia de rendas e lacinhos. Ao caminhar a boca de sino  mostrava e escondia as rendas vermelhas num contraste entre o jeans e a sandália preta..  A maldita calcinha avançava em direção ao dorso do pé perigosamente sujeita a se mostrar todinha bem no meio do restaurante, sob o olhar das pessoas, no entorno, certamente  pensando como  este tipo de roupa íntima conseguiu sair do lugar que lhe é próprio. Hoje ela conta dando risada mas no momento odiou.